Relações de poder
Por que os espaços que deveriam proteger são os que mais adoecem
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Espaços como a universidade e os ambientes públicos não são neutros. Eles são atravessados por relações de poder, hierarquias simbólicas e violências naturalizadas. Para mulheres, esses espaços costumam ser especialmente hostis porque exigem presença constante sem oferecer cuidado algum. Exigem produção, desempenho, silêncio e resistência, mas raramente acolhem a vida que existe por trás dos corpos que os ocupam.
Nós crescemos acreditando que a universidade é lugar de pensamento crítico, liberdade intelectual e emancipação. Mas, na prática, ela opera muitas vezes como uma máquina de normalização. O meio acadêmico cobra excelência enquanto ignora sofrimento. Valoriza currículos, métricas e produtividade, mas desconsidera luto, adoecimento, violência, sobrecarga e desigualdade. A vida real é tratada como ruído.
Para mulheres, isso se agrava. Nós carregamos o peso da expectativa de sermos brilhantes, organizadas, resilientes, emocionalmente controladas e sempre disponíveis. Quando falhamos ou apenas adoecemos somos vistas como fracas, instáveis ou pouco profissionais. A dor vira incompetência. A vulnerabilidade vira risco.
Pierre Bourdieu já mostrava que instituições reproduzem violências simbólicas ao fingirem neutralidade. A universidade não é exceção. Ela premia quem consegue separar brutalmente vida e trabalho, como se isso fosse possível para todos. Mas não é. Especialmente não é para mulheres que enfrentam assédio, discriminação, maternidade, jornadas múltiplas e a constante necessidade de provar legitimidade.
Há ainda o silêncio institucional. Casos de assédio são abafados. Denúncias se arrastam. A reputação da instituição pesa mais do que a vida de quem sofre. O sofrimento psíquico é tratado como problema individual, nunca como sintoma estrutural. Como se a culpa fosse sempre de quem não aguentou.
Byung-Chul Han fala de uma sociedade do desempenho, onde o sujeito se explora a si mesmo até o esgotamento. Na academia, isso é elevado à virtude. A exaustão vira mérito. O adoecimento vira fracasso. E assim, pouco a pouco, o espaço que deveria produzir conhecimento passa a produzir sofrimento.
Não é coincidência que os índices de ansiedade, depressão e suicídio estejam aumentando nesses ambientes. Quando a vida não importa, quando a dor não é escutada, quando o valor de alguém se mede apenas pelo que produz, a existência se torna pesada demais. Não é que as pessoas não queiram viver é que viver nesses moldes se torna insuportável.
Nós precisamos dizer isso com clareza:
o problema não são indivíduos frágeis.
O problema são estruturas desumanizantes.
Enquanto universidades e espaços públicos continuarem tratando a vida como obstáculo à produtividade, continuarão adoecendo quem tenta existir com dignidade dentro deles. Cuidar da saúde mental não é favor, não é concessão é responsabilidade política e ética.
Pensar criticamente o mundo começa por reconhecer que conhecimento sem cuidado não emancipa. Apenas machuca com linguagem sofisticada.
E nós já estamos cansadas de sobreviver onde deveríamos poder viver.