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O LADO B DA LITERATURA

Pedro Rabelo, o imortal que o tempo silenciou

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Autor/Imagem:
Cassiano Condé - Foto de Arquivo

Em meio à agitação das redações cariocas do final do século XIX, um jovem de olhar atento e caneta afiada circulava com a naturalidade de quem nasceu para as letras; este é o perfil de Pedro Carlos da Silva Rabelo, que será retratado de hoje em O Lado B da Literatura. Carioca da gema, ele não era apenas mais um jornalista no mar de periódicos da capital; ele foi um dos pilares da fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira nº 30 quando tinha apenas 28 anos.

Sua trajetória é marcada por uma produção que flutuava entre o rigor do Parnasianismo e a crueza do Naturalismo. Em obras como A Alma Alheia, Rabelo demonstrava um domínio incomum do conto, gênero que o consagrou entre seus pares. Curiosamente, apesar de sua juventude, ele já era uma voz respeitada, participando ativamente de movimentos fundamentais da época, como o abolicionismo e a transição para a República.

A boemia carioca era o palco onde sua personalidade florescia entre fumaça, café e discussões políticas acaloradas. Pedro Rabelo fazia parte da célebre “Geração Boêmia”, ao lado de nomes como Olavo Bilac, Coelho Neto e Guimarães Passos. Esse grupo chegou a manter uma “pousada” na rua Senhor dos Passos para abrigar suas noitadas intelectuais, onde a literatura não era apenas arte, mas um estilo de vida compartilhado nas mesas dos cafés do centro do Rio.

Entretanto, ao contrário de seus amigos contemporâneos, que se tornaram figuras onipresentes nos livros escolares, o nome de Rabelo foi sendo gradualmente empurrado para as notas de rodapé da história. O autor, que faleceu prematuramente aos 37 anos, deixou uma biografia cercada de lacunas e poucos registros anedóticos, o que dificultou a criação de um “mito” em torno de sua figura, ao contrário do que ocorreu com o folclórico Bilac.

Especialistas apontam que a principal causa de seu apagamento literário reside na natureza fragmentária de sua obra e em sua morte precoce. Diferente de autores que tiveram décadas para consolidar seus legados, Rabelo teve sua produção interrompida no auge, deixando textos espalhados por jornais e revistas que nem sempre foram reunidos em edições póstumas acessíveis ao grande público.

Outro fator determinante para esse silenciamento foi a própria historiografia literária do século XX. O processo de seleção de quais autores são considerados “essenciais” muitas vezes privilegia aqueles com obras extensas e biografias documentadas, deixando para trás os “escritores de jornal” ou aqueles que, como Rabelo, exploraram uma literatura mais licenciosa e satírica durante a Belle Époque.

Recuperar Pedro Rabelo hoje é um exercício de justiça histórica e prazer estético. Seus contos revelam uma sensibilidade aguda para as questões humanas e uma técnica narrativa que ainda soa moderna. Ler sua obra é mergulhar em um Rio de Janeiro desaparecido, mas cujas tensões e belezas ele soube registrar com precisão cirúrgica, capturando a alma da rua e o espírito de seu tempo.

A memória de Pedro Rabelo sobrevive, formalmente, nas paredes da Academia Brasileira de Letras, mas seu verdadeiro lugar deveria ser nas estantes dos leitores apaixonados pela literatura nacional. Redescobri-lo é entender que a imortalidade acadêmica é um título, mas a permanência literária depende de mantermos vivas as palavras de quem, tão cedo, partiu deixando tanto a dizer.

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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.

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