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Lendas do povo Navajo

Quando o mundo, doente, precisava ser curado

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Autor/Imagem:
Paulus Bakokebas - Foto Editoria de Artes/IA

Para os Navajo — que se autodenominam Diné, “o Povo” — o mundo não foi criado de uma vez, mas conquistado camada por camada, em um processo espiritual contínuo de aprendizado, equilíbrio e cura. Suas lendas não pertencem apenas ao passado: elas organizam o presente e projetam o futuro.

Diferentemente das mitologias centradas em deuses distantes, a cosmologia Navajo é relacional. Tudo está conectado: humanos, animais, montanhas, ventos, estrelas e espíritos. O nome desse princípio é Hózhó.

Mais do que “beleza”, Hózhó significa viver em equilíbrio com o cosmos. Doença, azar ou conflito são sinais de que esse equilíbrio foi rompido. Por isso, muitas lendas Navajo não explicam apenas a origem do mundo, mas como restaurá-lo.

Cantar, narrar histórias e realizar cerimônias não é entretenimento: é manutenção do universo.

Segundo a tradição, os Diné atravessaram quatro mundos antes de chegar ao atual. Cada mundo foi abandonado após conflitos, excessos ou quebra da harmonia. Guiados por seres espirituais e animais sagrados, os Navajo emergiram para a superfície atual através de um junco ou de uma abertura sagrada na terra.

A lição é clara: a sobrevivência depende da ética, não da força.

Entre todas as figuras míticas, nenhuma é mais importante do que Changing Woman (Mulher que Muda). Ela representa o ciclo da vida, as estações, a fertilidade e a renovação.

Changing Woman deu origem aos Gêmeos Heróis, que enfrentaram monstros responsáveis por doenças, fome e caos. Esses monstros simbolizam forças destrutivas do mundo — algumas vencidas, outras apenas controladas, porque também fazem parte da existência.

Nada é eliminado totalmente. Tudo é equilibrado.

Como em muitas culturas indígenas, o Coyote ocupa o papel do trapaceiro. Ele é curioso, irreverente e irresponsável. Muitas desgraças começam por causa dele — mas também muitas transformações.

O Coyote ensina que o erro faz parte do aprendizado e que o mundo não é um lugar perfeitamente ordenado. Sem ele, dizem algumas histórias, o universo seria estático demais para existir.

As lendas Navajo ganham corpo nas cerimônias de cura, conduzidas por homens e mulheres-medicina. O mais conhecido é o Blessingway, ritual voltado à proteção, equilíbrio e boa sorte.

Há também cerimônias longas, que podem durar dias, envolvendo cantos, pinturas de areia e narrativas sagradas. Cada símbolo é temporário — porque a própria vida é.

Apesar da colonização, das tentativas de apagamento cultural e da imposição de valores externos, os Navajo mantiveram suas crenças. Hoje, elas convivem com o mundo moderno, sem perder o sentido original.

Em tempos de crise ambiental e social, a visão Navajo ecoa como advertência e convite: não dominar a Terra, mas caminhar com ela.

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