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Monte de ossos

Ele dirigia com cuidado…

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Ele dirigia com cuidado, sem piscar: caveiras não têm olhos nem pálpebras para fazê-lo. Afinal chegou a seu destino, um enorme espaço fora do espaço comum, invisível para os viventes. Cumprimentou com um aceno dos ossos da mão esquerda o esqueleto que guardava a entrada. Este respondeu com um movimento quase imperceptível para baixo do crânio reluzente, sem sorrir. Caveiras não sorriem – ou, antes, sorriem o tempo todo, se é que se pode chamar de sorriso a boca perpetuamente aberta, mostrando os dentes, quando os há, ou os poucos restantes, até que o maxilar inferior ceda, e apenas reste um arremedo de sorriso. Seja como for, é algo sem cordialidade alguma, caveiras não são cordiais.

Ele estacionou o automóvel, um dos poucos no enorme espaço, e desceu. Fechou a porta com cuidado, esqueletos não se machucam, não dispõem de nervos, mas quebram com facilidade; a chave ficou na ignição, esqueletos não roubam veículos, muito menos de seus pares, e arrastou os ossos dos pés até a entrada de um enorme salão. Muitos milhares de montes ambulantes de ossos faziam o mesmo.

Ele penetrou em um recinto escuro como breu; como dito acima, caveiras não têm olhos, não precisam de luz. O silêncio era total, ou assim parecia, caveiras já perderam as partes moles da face, não têm ouvidos, são surdas como uma porta. O ar circulava – não que fosse necessário, esqueletos não dispõem de pulmões para respirar –, mas não trazia odores agradáveis ou desagradáveis. Ou talvez trouxesse, só que as caveiras nunca saberiam, pois já haviam perdido os narizes. Aquele espaço aparentemente escuro e silencioso era um lugar de espera, e era isto que todos aqueles montes de ossos estavam fazendo: esperavam para testemunhar.

Em cada parede do salão, havia uma tela gigantesca com a mesma mensagem, composta de uma sucessão aparentemente infindável (mas não infinita) de 9s e, no final, três dígitos, 352. Caveiras não pensam, mas todas sabiam o que isso significava. Era o número de dias que faltavam para o Juízo Final.

Quando chegou a hora, não soou uma sirene ou coisa parecida, mas ele e os demais esqueletos sabiam que era o momento do testemunho. Quatro montes de ossos arrastaram-se até as paredes e modificaram o último dígito no final do meganúmero. 351. O testemunho fora dado, a data se aproximava, em ritmo lento, mas inexorável.

Todos os esqueletos abandonaram o local. A maioria retornou a seus túmulos, para voltar no dia seguinte, para novo testemunho. Ele preferiu se desmaterializar, dentro do veículo. Este fora totalmente destruído na colisão que o matara e, de algum modo, se incorporara ao que restava dele – resquícios de psiquismo, em meio a seus ossos.

No dia seguinte, ambos se materializariam e seguiriam para o espaço fora do espaço. Quem sabe, dessa vez, ele não se limitaria a testemunhar, mas estaria entre os quatro que modificariam o último dígito, tornando mais próximo o momento prometido, a hora da libertação. Ou do castigo eterno, para um esqueleto tanto fazia.

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