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Caminhada pelo tempo

Passado e futuro… Simplesmente lembranças…

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Autor/Imagem:
Tania Miranda - Foto Francisco Filipino

Tenho que reconhecer… a muito dobrei o Cabo da Boa Esperança. E o que isso significa? Bem, minha quilometragem está alta. Como me sinto? Muito bem. Sinceramente, não vejo nenhuma diferença entre a Tania dos dias de hoje e aquela jovenzinha sonhadora de algum tempo atrás… claro, a “carroceria” apresenta os sinais dos tempos… afinal, não há como passar incólume pelas décadas, como já passei, graças a Deus…

Talvez a parte mais triste de nossa caminhada pelo tempo seja nos despedirmos de rostos conhecidos… bem, na verdade nem nos despedimos, realmente. As pessoas simplesmente passam por nossas vidas. E um belo dia simplesmente desaparecem. E num belo dia recebemos a notícia de que tal pessoa deixou esse plano. A sensação? É difícil definir… ao mesmo tempo que ficamos agradecidas por ainda permanecermos deste lado, a sombra da preocupação acaba por nos cobrir… afinal, somos lembradas de que somos finitas. E a cada rosto conhecido que parte, mais próximas ficamos da Nau de Caronte…

Outro dia estava pensando sobre isso… da turma de minha rua que nasceu no mesmo ano que eu, ninguém mais além de mim permanece nesse plano… todos os outros a muito embarcaram para a viagem sem volta. Alguns partiram bem cedo, outros ficaram um pouco mais. E, de nossa turma, restou apenas essa amiga que vos fala…

Claro, não posso dizer que era muito próxima de todos. Estaria mentindo. Mas éramos todos companheiros de folguedos em uma época em que se podia brincar nas ruas, que ainda eram de terra batida. Quando chegavam os ventos de outono a poeira subia aos céus. Quando as nuvens anunciavam as chuvas da primavera, sentíamos o cheiro das folhas das árvores, que vinham até nós com seu perfume inebriante…

A paisagem era bem diferente dos dias de hoje. Se tentamos explicar para a nova geração como era a vida nesse mesmo local na época em que eu era criança, elas não conseguem imaginar como tudo era realmente. Não dá para pensarem em como no mesmo local em que vivemos nos dias de hoje se criava galinhas, porcos… a apicultura era algo comum… os diversos jardins, cuidados com tanto esmero pelas mulheres da vila forneciam a matéria prima que as abelhas precisavam para produzir um mel delicioso, que era distribuído entra a vizinhança gratuitamente…

Como explicar que, onde hoje há apenas asfalto e cheiro de óleo e gasolina, a gente costumava procurar formigueiros na primeira trovoada da primavera, munidas de caldeirões para “colher” as tanajuras que alçavam seu voo para fundar novas colônias? E que comíamos esse “acepipe” em uma farofa…

Tudo bem, nos dias de hoje nem encontramos mais as tanajuras, nem as saúvas que trabalham para estas… mas em minha infância tal era muito comum por toda a região… outros tempos, outra vida…

Muito daquilo que eu conheci como criança a muito desapareceu deste local. As mamangavas, as cigarras, paquinhas, borboletas… bem, estas últimas ainda insistem em esvoaçar por aqui, nos fazendo recordar de um tempo que se foi, como o canto do galo de madrugada, ou o mugido do boi ao longe, ou o trotar dos cavalos pela campina, que a muito deu lugar a conjuntos de prédios ou avenidas…

E os pássaros? Plumagens multicoloridas, cantos diversos, muitos deles envoltos em misticismos… o Pássaro Saci, por exemplo… “se canto longe, estou perto… se canto perto, estou longe…” O curiango era outro pássaro que era envolto pela magia. Seu canto à noite nos fazia imaginar mil coisas, principalmente na lua cheia…

Quantas coisas a gente lembra, não é mesmo? A saudade vem, abre o Livro de Recordações da vida… sabemos que aquilo que já passou não mais retornará… ficamos tristes por um átimo de segundo, mas a dinâmica do mundo não nos permite ficarmos muito tempo presas no passado. Afinal, o passado não existe, assim como o próprio futuro. Estamos inseridos no presente, e dele não há como escapar. Tudo o que passou fica no Limbo, retornando de vez em quando para nos lembrar quão frágeis somos. E que devemos preparar as próximas gerações para enfrentarem o seu presente, quando já tivermos partido…

E assim a vida segue seu fluxo… em algum momento deixarei meu lugar nesse plano para outra pessoa poder iniciar sua jornada. E tudo que posso… e devo fazer, é procurar dar meu melhor para o mundo para que, quando eu partir, possa ser lembrada com carinho por aqueles que aqui permanecerem… pois enquanto estiver em sua lembrança, continuarei existindo, mesmo que não fisicamente…

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