A Revolução dos Camisas Negras
Como o Vasco se tornou o legítimo Clube do Povo
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A história do futebol carioca guarda um capítulo de resistência que, até hoje, define a identidade do Vasco da Gama. Em 1923, o clube subvertia a lógica elitista da época ao conquistar o Campeonato Carioca com um time apelidado de “Camisas Negras”, composto majoritariamente por jogadores negros, pardos e operários. A vitória de um elenco suburbano sobre as potências aristocráticas do Rio de Janeiro não foi apenas um feito esportivo, mas um abalo sísmico nas estruturas sociais da capital.
Incomodados com a ascensão vascaína e a democratização dos gramados, os clubes da elite — liderados principalmente por Flamengo e Fluminense — decidiram romper com a liga vigente. Em março de 1924, esses clubes fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), uma nova entidade que estabelecia critérios rigorosos e discriminatórios para a filiação.
O objetivo central da criação da AMEA era claro: excluir o Vasco e seus jogadores indesejados. Para aceitar a filiação do campeão de 1923, a nova liga impôs uma condição inaceitável: o clube deveria dispensar 12 de seus atletas, sob a alegação de que não possuíam “profissão definida” ou “condição social compatível” com a nobreza do esporte.
O Botafogo, embora também fizesse parte do círculo de elite fundador da AMEA, chegou a apresentar resistências internas quanto ao isolamento total do Vasco. No entanto, a pressão política exercida pelos vizinhos das Laranjeiras e do Flamengo (somente em 1938 foi fundada a sede da Gávea) prevaleceu, e o clube alvinegro acabou acatando as diretrizes de Flamengo e Fluminense, participando ativamente da liga que barrava os jogadores negros e pobres.
Diante da exigência racista, o então presidente do Vasco, José Augusto Prestes, redigiu ,em 7 de abril de 1924, o que viria a ser conhecida como a “Resposta Histórica”. No documento, Prestes declarou que o Vasco não sacrificaria aqueles que haviam lutado pelo título no ano anterior e, por isso, o clube abria mão de ingressar na nova associação.
A expulsão velada do Vasco da liga de elite forçou o clube a disputar o campeonato da antiga liga (LMDT) em 1924, onde sagrou-se novamente campeão. Enquanto isso, a AMEA seguia como uma “vitrine” para a elite, mas o clamor popular e o sucesso de público dos jogos vascaínos começaram a minar a relevância da nova liga.
O isolamento imposto pelos rivais acabou tendo o efeito oposto ao desejado: a torcida do Vasco explodiu em crescimento. O sentimento de perseguição e a defesa intransigente da diversidade transformaram o clube em um símbolo de resistência para as massas operárias e para a população negra do Rio de Janeiro.
Para combater o argumento das elites de que o clube não possuía um estádio digno — outra barreira utilizada para tentar impedir sua participação —, o Vasco mobilizou seus sócios e torcedores. Esse esforço resultou na inauguração de São Januário em 1927, na época o maior estádio da América do Sul, construído com o dinheiro do povo.
Somente em 1925, diante da pressão social e do prejuízo financeiro que era ignorar o time mais popular da cidade, a AMEA foi obrigada a aceitar o Vasco com seus jogadores negros e operários. A barreira do preconceito havia sido rompida, mudando para sempre a face do futebol brasileiro.
Hoje, a Resposta Histórica é celebrada como o ato que consolidou o Vasco como o verdadeiro “time do povo”. Mais do que uma conquista esportiva, a postura de 1924 garantiu que o futebol deixasse de ser um privilégio de poucos para se tornar a maior paixão democrática do Brasil.