Corrida armamentista
Fim de acordo nuclear deixa o mundo assustado
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O encerramento do New Start, último grande acordo de controle de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia, marca um divisor de águas na arquitetura de segurança global. Sem renovação ou substituição do tratado, o planeta entra em uma fase de maior incerteza estratégica, na qual o equilíbrio nuclear passa a depender menos de regras formais e mais de cálculos políticos — muitas vezes instáveis.
Assinado em 2010 e em vigor desde 2011, o New Start limitava o número de ogivas nucleares estratégicas e de vetores de lançamento (mísseis balísticos intercontinentais, submarinos e bombardeiros) das duas maiores potências nucleares do mundo. Mais do que números, o acordo estabelecia mecanismos de verificação, inspeções presenciais e troca de informações, reduzindo o risco de desconfiança e de interpretações equivocadas sobre movimentos militares.
Com o fim do tratado, esse sistema de freios e contrapesos deixa de existir. Na prática, Washington e Moscou passam a ter liberdade para expandir ou modernizar seus arsenais sem limites legais, reacendendo o fantasma de uma nova corrida armamentista. Ainda que ambos afirmem não buscar um confronto direto, a ausência de transparência aumenta o risco de erros de cálculo — um dos fatores mais perigosos em cenários nucleares.
O impacto, porém, vai além da relação bilateral. A ruptura do New Start enfraquece todo o regime internacional de não proliferação. Outras potências nucleares, como China, Índia e Paquistão, observam atentamente esse vácuo normativo. Para países que se sentem ameaçados regionalmente, o sinal é claro: se as grandes potências não respeitam limites, por que os demais deveriam fazê-lo?
Em um contexto já marcado por guerras regionais, tensões geopolíticas e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais, o fim do acordo adiciona um componente de instabilidade sistêmica. Não significa, necessariamente, que o mundo esteja à beira de um conflito nuclear iminente. Mas significa que os mecanismos que reduziam o risco desse conflito estão mais frágeis do que nunca.
O cenário que se desenha é o de um mundo potencialmente mais bélico, menos previsível e mais dependente da racionalidade — ou da falta dela — dos líderes políticos e militares. Sem diálogo estruturado e sem tratados, a dissuasão nuclear deixa de ser regulada por regras e passa a ser sustentada apenas pela lógica do medo. E a história mostra que, quando o medo substitui a diplomacia, o preço costuma ser alto demais.
