Piloto assassino
Quem mata por um chiclete não serve para viver livre em sociedade
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No Brasil dos meus tempos, a vida valia versos e canções inesquecíveis. Hoje, ela vale um par de tênis, um celular, uma bike e, no pior dos cenários, um chiclete mascado. Foi-se a época em que os jovens tinham limites em casa, na escola e na rua. Fui um deles e, apesar de toda a rebeldia inerente à idade, jamais achei normal agredir e matar por futilidades. Brancos, negros, ricos e pobres recebiam a lição na escola e depois faziam a prova. Atualmente, a juventude que pode tudo faz a prova e depois recebe a lição.
É claro que há exceções. E são muitos os jovens que desfrutam, com paz e normalidade, da simplicidade e das incertezas da vida. Há, porém, os que preferem as trevas, que não conseguem ser vistos como pessoas normais e respeitadoras e, por isso, não veem e não respeitam nada e nem ninguém. São superiores e isso lhes basta. Seria esse o caso do ex-piloto Pedro Arthur Turra Basso, de 19 anos? Com certeza!
O que mais explicaria seu animalesco e perverso gesto de espancar um adolescente de 16 anos, abandoná-lo agonizando e achar que cumpriu seu papel de macho mais forte e economicamente mais aquinhoado? O desrespeito ao próximo é capaz de fechar uma porta que nenhuma desculpa é capaz de abrir de novo. Ao preferir desconhecer o dever e a justiça para dar satisfação ao orgulho da força do poder, Arthur Turra fechou a dele com tranca enferrujada, daquelas que, caso um dia seja aberta, será para o desprezo de seus iguais.
Arthur não apenas agrediu. Ele matou um semelhante e merece todo o rigor da lei. Em algum momento, o piloto assassino deve ter ouvido em família que, na vida, tudo tem preço. Nela, não existe castigo, tampouco recompensa. Tudo é resultado. O plantio é livre, mas a colheita é obrigatória. Portanto, a provável condenação e o castigo da longa prisão serão somente a consequência do mal que ele mesmo plantou. Com certeza o que Arthur Turra não ouviu em casa, na escola ou na rua é que a vida é como um restaurante: ninguém vai embora sem pagar a dívida.
A lei do retorno estabelece que aqui se faz, aqui se paga. O mais triste é que quem não faz também paga. O menino agredido morreu por conta da sanha tirânica de alguém que não serve para viver em sociedade. Lamento por seus familiares, mas Arthur Turra não fará falta à comunidade. Ele fez seu número, divertiu a alguns e principalmente a si mesmo. Chegou a hora dele sair de cena. Pelo menos deixar o cenário em que se achava o dono do mundo. O novo palco certamente o fará perceber que toda araruta tem seu dia de mingau.
Não será fácil para a família do menino assassinado virar a página, refazer a mala e voltar a viver como se nada tivesse acontecido. Entretanto, coisas boas sempre acontecem para aqueles que sofrem, mas esperam. Arthur Turra não aprendeu, mas que os pais, irmãos, tios, primos e afins do adolescente saibam que a vida não é encontrar a si mesmo. A vida é criar a si mesmo. Quanto ao piloto Arthur Turra, a conclusão é simples: vida é para quem sabe viver. Ele não soube, não sabe e jamais saberá.
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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, tem sua velha Remington como troféu na estante da sala e usa um Notebook para escrever artigos para Notibras
