Ser ou estar
Vaidade, função e o dilema que resta quando se ocupa cargo público
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Nenhum cargo pertence a quem o ocupa. Nem os conquistados pelo voto, nem os alcançados por nomeação, tampouco os protegidos por garantias institucionais. Todos são, em essência, casas emprestadas, tronos provisórios, espelhos que devolvem apenas o reflexo do instante. Ainda assim, não são poucos os que confundem a chave com a propriedade, a função com a posse, o tempo de permanência com algum tipo de direito natural.
O problema não está no comando político, nem nas decisões institucionais em si, mas na forma como alguns confundem função com identidade. O poder, quando chega cedo demais ou é mal digerido, costuma provocar um efeito curioso: dilata a percepção de importância e fortalece o apego ao lugar que se ocupa. A escuta encurta, o entorno perde relevância, e o mundo passa a orbitar em torno de um centro imaginário.
Ocupar cargos públicos relevantes, especialmente em posições de decisão, implica aceitar a exposição, compreender as cobranças e lidar com elas com maturidade. A crítica, justa ou injusta, faz parte do ofício. O que diferencia o exercício responsável da simples ocupação é a habilidade de responder não com irritação ou fuga, mas com trabalho, entrega e humildade institucional.
Há quem tente existir pelo confronto. Fala alto, impõe gestos, acredita que firmeza se mede pela quantidade de portas batidas. Confunde autoridade com ruído e liderança com colisão. Vive em permanente estado de tensão, como se o embate fosse prova de relevância. E, quando algo não funciona, a culpa nunca é própria. Está sempre nos outros, no sistema, na herança recebida, na equipe que não acompanhou. O erro, para esse tipo, é sempre externo.
Quando a culpa nunca é própria, a função deixa de ser exercício e passa a ser fuga.
Não percebe que o confronto contínuo, somado ao apego excessivo ao lugar que se ocupa, costuma ser sinal de fragilidade, não de força.
Outros preferem a vaidade silenciosa. Controlam tudo. Fiscalizam tudo. Desconfiam de todos. Erguem muralhas internas e transformam convicções em dogmas. O apego se manifesta pelo controle absoluto, pela dificuldade em ceder, pela crença de que flexibilidade é sinônimo de perda de autoridade. Esquecem que sistemas rígidos quebram justamente quando mais precisam se adaptar.
Há ainda a vaidade que se encena. Gestos calculados, frases ensaiadas, presença teatral. A estética precede a substância. A função vira palco, o cotidiano vira cena. Tudo é performance. Tudo é pose. O apego aqui não é ao cargo em si, mas à imagem que ele projeta.
Nesse cenário, algumas estruturas institucionais ajudam a confundir ainda mais ser e estar. Quando a função se aproxima da ideia de permanência, quando o exercício do cargo se reveste de vitaliciedade, cria-se a ilusão de que o poder deixa de ser transitório. O risco não está na garantia institucional, mas no esquecimento de que toda autoridade, mesmo a mais protegida, deveria ser exercício, nunca identidade. Onde não há horizonte de saída, a autocrítica tende a se tornar opcional.
O ambiente virtual atua como combustível desse processo. Redes não criam apegos, mas os amplificam. Entregam aplauso instantâneo, validam excessos, confundem curtidas com consenso e barulho com legitimidade. O que alimenta a vaidade de alguns costuma provocar repulsa silenciosa em quem ainda valoriza sobriedade e discrição.
O erro comum não está no talento, nem na juventude, nem na formação. Está na confusão entre ser e estar. Estar é circunstância. Ser é caráter. Estar é função. Ser é postura. Quem entende isso cedo, passa pelas funções públicas sem ser engolido por elas. Quem não entende, transforma o cargo em abrigo e o apego em defesa.
Há momentos que não terminam ninguém; apenas devolvem o indivíduo a si mesmo. Porque cargos passam, mandatos se encerram, palcos se esvaziam. Mesmo os que parecem perpétuos são, no fundo, sustentados pela confiança coletiva, nunca pela posse pessoal. O que resta não é o lugar que se ocupou, mas a forma como se esteve nele.
Ser ou estar, afinal, nunca foi um dilema administrativo. É existencial.
Eis a questão.
