BRB-Master
Congresso teme abrir CPI e uma caixa preta ideológica
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O caso envolvendo operações e relações entre o BRB e o Banco Master continua a ecoar nos corredores de Brasília como um daqueles enredos que ninguém consegue ignorar, mas poucos demonstram disposição real de aprofundar. Em público, parlamentares falam em transparência, fiscalização rigorosa e respeito ao dinheiro do contribuinte. Nos bastidores, porém, o clima é de prudência e, para alguns, de receio.
A expressão que circula com frequência reservada é sugestiva: caixa preta ideológica. Não se trata apenas de rastrear números, contratos ou critérios técnicos. O temor é que uma investigação parlamentar mais agressiva possa revelar conexões políticas transversais, capazes de atingir atores situados em campos aparentemente opostos do espectro partidário.
Essa possibilidade ajuda a explicar por que, apesar do barulho recorrente nas redes sociais e das cobranças de setores da opinião pública, a ideia de uma Comissão Parlamentar de Inquérito avança em ritmo lento. Assinaturas aparecem, desaparecem, são relativizadas. Enquanto algumas lideranças defendem “mais informações” antes de qualquer passo formal, outras pregam cautela para evitar “contaminação eleitoral”.
No Congresso, sabe-se que CPIs possuem dinâmica própria. Uma vez instaladas, ganham autonomia, holofotes e vida política independente. Relatores e presidentes passam a operar sob pressão permanente da mídia, dos órgãos de controle e dos grupos de interesse. Até que o roteiro foge facilmente ao controle daqueles que imaginaram conduzi-lo.
No caso específico do BRB–Master, o risco percebido por muitos é o efeito dominó. Ao puxar um fio, pode-se chegar a ambientes de financiamento, influência institucional, patrocínios, publicidade, crédito direcionado e apoio indireto a projetos de poder de diferentes naturezas. Nesse caso, poucos partidos sairiam ilesos de uma devassa que ultrapassasse a superfície contábil.
Há ainda como componente adicional a fadiga política. Depois de anos marcados por investigações sucessivas, parte do Parlamento avalia que uma nova CPI de grandes proporções poderia paralisar votações relevantes e ampliar a tensão entre Executivo, Legislativo e Judiciário. O cálculo é bem pragmático, ou seja, ao abrir essa porta talvez signifique não conseguir fechá-la.
Isso não significa que o tema deixará a agenda. Ao contrário, ele tende a permanecer como instrumento de pressão latente, acionado conforme as conveniências do momento. A “quase CPI” transforma-se, assim, em moeda política que não se enterrada mas também não se mantém plenamente viva.
Enquanto isso, a tal caixa preta segue mais como metáfora do que como realidade aberta. Todos falam dela, embora poucos queiram, de fato, descobrir até onde vai sua profundidade; Especialmente se o fundo puder refletir rostos distribuídos pelas mais variadas correntes ideológicas.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras