Confusão deliberada
Aristarco viveu como se não houvesse amanhã
Publicado
em
Filho de plantadores de oliveiras no Norte de Portugal, meu avô Aristarco Pederneira chegou ao Brasil no início do século passado. Já homem feito, fez de tudo um pouco na nova terra. Dançou na chuva, quase foi velho de programa, trabalhou como fiscal de pista em casa de prostituição implícita e explícita, mas, graças ao Deus de todos nós, jamais pensou em ser dono de panificadora. Portanto, não foi ele a inspiração de Zeca Baleiro ao escrever a frase “Hoje eu acordei com uma vontade danada de beijar o português da padaria”, um dos belos versos da canção Telegrama.
Ainda com pouco acesso à língua do lado de cá, deliberadamente vovô confundia termos parecidos ou análogos. Por exemplo, para ele, Pires de Oliveira era a mesma coisa que um pratinho de azeitona. Também não havia diferença entre a banda dos Fuzileiros e a bunda do funileiro. Do tipo malandro com retrato na coluna social, Aristarco só não admitia confusões quando tentavam apresentá-lo como vítima. Por exemplo, misturar a papelada sobre a mesa com o pai pelado de sobremesa era briga para dois ou três dias, sem intervalos para hidratação.
Vovô nasceu e cresceu prevenido. Tanto que, bem antes de partir dessa para melhor, ele já tinha algumas locuções prontas para sua lápide. Entre tantas, meu pai e meus tios deixaram três de stand bye: Coberto de terra e de razão, Minha cova, minha vida e Me liga agora, Serasa. No dia D, coube a mim, o neto mais velho, a escolha final. Optei por um texto futurista e que, muitos anos depois, acabou inspirando a cantora e compositora Carol com K a compor seu único, mas eterno sucesso. O velho Aristarco Pederneira repousa serenamente lapidado com a única certeza que todos temos: “Já que é pra tombar, tombei”.
Ele tombou, mas antes de subir aos céus fez muita gente rir da desgraça ou das gafes alheias. Piadista dos melhores, vovô não perdia a oportunidade de gozar os patrícios. Parceiro na viagem para o Brasil lá nos anais dos anos mil novecentos, o amigo Petrúcio Sparrela era sua principal vítima. Em uma mesa recheada de japoneses do Ceará, Aristarco resolveu contar uma viagem que Sparrela havia feito ao Japão, onde comprou um par de óculos, cuja tecnologia avançada deixava qualquer mulher pelada. Foi uma farra. Encantado, era Petrúcio por os óculos e a mulherada ficava nua. Tirava os óculos, a mulherada se vestia. De volta ao Brasil, correu para casa a fim de surpreender a Maria.
Na verdade, após semanas de ausência, queria vê-la nua, mas a surpresa foi outra. Adentrando o lar, deu de cara com a Maria e o compadre Serafim Come Quieto pelados no sofá. Tira os óculos, pelados! Põe os óculos, pelados. Tira e põe, põe e tira e Maria e Serafim sempre pelados. Furioso, Sparrela deu um berro no meio sala e espinafrou os japoneses: Carajo, essa merda já quebrou. Disposto a evitar mal maior, o corno chutou com o pé que estava mais à mão o par de óculos para os confins. Voltando à lápide de vovô, com a devida autorização de vovó Anastácia Pederneira, estou pensando seriamente em negar a máxima do jogo do bicho e desfazer o que está escrito. Em lugar do tombo, talvez eu escreva a frase com a qual certamente ele mais se identificaria: Viveu como se não houvesse amanhã. E não houve.
……………..
Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras