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Interior/Exterior

Somos todos Gregor Samsa

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Francisco Filipino

“Estou aqui, mais do que isso não sei.”
(Franz Kafka, O caçador Graco)

*Temos um senso comum sobre FRANZ KAFKA (1883 -1924): escritor tcheco, de língua alemã, considerado um dos principais escritores da Literatura Moderna. Suas obras retratam a ansiedade e a alienação do homem do século XX. Generalizações históricas.

Resolve; porém desejo conversar na crônica de hoje sobre sentidos, emoções e fazeres mais ocultos presentes no lado profundo – aquele outro lado que todos temos – do homem do castelo kafkiano.

Toda a obra de Kafka é produzida numa espécie de pesadelo, ou num estado de transe paranoico, que retrata corredores escuros e seres sinistros, procedimentos burocráticos e “manias persecutórias”, ou seja, no popular: mania de perseguição.

Tá; pra não engessar esta crônica que objetiva ser leve, fluente, “pro povão”, repletas de cenários e ações cotidianas, vamos deixar claro o papo que rola aqui: literatura de mesa de boteco. Isto mesmo; aquele papo gostoso no final da sexta-feira no happy hour/hora feliz com os amigos do peito; os AMIGOS, pois geralmente “esses encontros ainda são muito machistas para ‘abrir’ para as fêmeas”, com diria Gregório Souza, parceiro de copo que tive na Sampa do final dos anos 1970 fazendo o curso de jornalismo na Cásper Líbero.

Isto mesmo, Gregório, um fervoroso leitor “às avessas” do célebre Kafka. Ele dava logo na cara:

“Velhinho, larga a mão de ser ingênuo: Kafka foi um gênio doidão, paranoico, mas gênio que não se contentou apenas em virar barata; ele transformou tudo e todos naquele inseto desprezível… e para sempre!”

No livro A Metamorfose (1912), o protagonista acorda e sem mais nem menos vai adquirindo o aspecto de um inseto. Está logo na primeira página da novela.

De certa forma, todos nós somos Gregor Samsa e desde que nascemos seguimos pela vida predestinados a este movimento de transformação. É inevitável. Ao longo dos tempos, “O inseto em si não pode ser desenhado, nem mesmo à distância”, escreveu o “eterno perseguido”.

No entanto, Kafka foi transformado em vida na própria barata que ele criou na metáfora. Leitores, críticos, editores, os filmes e, agora, as plataformas sociais e seus algoritmos, insistem em ver Kafka apenas como este criador trágico, de narrativas sórdidas, fantásticas, metáforas visuais sobre a condição humana num século de tiranias e torturas. E não deixa de ser.

A ditadura da burocracia, do Estado engessado, da falta de prazer de viver, a rotina detestável de nossa vida “moderna” está na base de toda a sua obra.

Não, Kafka não foi um expressionista. Escrevia de forma direta mesmo em metáforas e fábulas. Tudo muito alucinado. Seu estilo é límpido, conciso. Suas novelas são deliciosamente curtas, macabras por certo, porém na justa medida; a gente fica com a impressão de serem esquemáticas,  parabólicas. Mas não são. São pedradas diretas, porradas na ponta do queixo.

Para finalizar, busco um resumo da Coisa Kafkiana do excelente e saudoso jornalista e escritor – também de minha geração de Sampa nos anos 70 -, Daniel Piza:

“Descrevendo o despropósito da crueldade, Kafka descreve o despropósito da própria natureza humana, da vida em sociedade – que é a única vida que o homem conhece. Kafka observa as contingências, não o acaso; não é nem profeta nem marginal. Para ele, o único sentido da vida é não ter sentido.”

Então vamos combinar assim: voltamos amanhã para a próxima crônica aqui no Café Literário; claro, depois de uma noite destrambelhada sem sono, paranoicos em pleno processo inevitável da metamorfose naquele enorme inseto que deixamos dormindo na cama pela manhã.

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**Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que nunca teve medo de baratas e tem um cachorro velho, meio cego e manco chamado GREGOR. Vive na vila de pescadores da Guarda do Embaú, litoral de SC. 

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