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Tempo e verso

Relógios da eternidade

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Já não sou a mesma sombra,
sou reflexo em espelhos da alma,
tempo e verso se dissolvem
como areia em relógios celestes.
Cada palavra é um rito,
cada sílaba, um templo oculto,
onde o silêncio se ajoelha
diante da chama invisível do amor.
Os dias voam como corujas noturnas,
guardando segredos em suas asas,
eu os conheço,
eles me acompanham,
mesmo quando imploro por calma,
eles seguem além,
como rios que atravessam mundos.
É noite na minha cidade,
meus lençóis são véus de mistério,
antes que eu devolva teu olhar,
aguardo uma carta sem súplica,
um oráculo de tua voz
gravado em palavras de cristal.
Eu me entendo, e espero,
te escuto no eco das estrelas,
é por isso que escrevo desde ontem,
para te reencontrar no amanhã.
Deixo queixas suspensas no ar,
como incenso em jardins secretos,
elas me entristecem,
sou vulnerável ao teu chamado,
meu lado oculto te deseja,
sem resposta,
me calo como sacerdotisa em ritual.
Preciso lavar minha saudade,
como fonte que purifica o templo,
sem testemunhas, sem vergonha,
após eras sem esquecer.
E já não sou o mesmo,
tempo e versos se dissolvem,
vida que se reparte em símbolos,
com o perfume dos hábitos,
com o aroma que nos deixou,
sem o vinho da despedida.
Afasto a brisa que me alcança,
guardo papel e tinta,
meus óculos são relíquias,
para que eu não perca o traço sagrado.
Os dias voam como aves míticas,
eu os conheço,
eles seguem comigo,
mesmo quando o tempo se desfaz
em eternidade de espelhos e jardins.
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