Machismo
Medo de ser mulher
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Telefone toca, minha amiga chorando.
Me preocupo excessivamente, ela está grávida de cinco meses e ainda não sabe o sexo do bebê.
— O que aconteceu? Pergunto preocupada.
— Não sei, estou com medo,
— Está com dor?
— Não, não sei explicar, apenas estou com muito medo.
— Está com medo de quê?
— Não sei, sonhei com muita água, minha cabeça está cheia de imagens de água e eu estou com muito medo.
Nesse momento entendi o que exatamente estava acontecendo, a maioria das mulheres entendem.
Deixei meu trabalho e fui até ela conversar.
— Você sofreu violência sexual? Perguntei.
— Sim, e estou com medo de estar grávida de uma menina.
Os detalhes da história não vêm ao caso aqui, mas a maioria das mulheres sentem esse medo, não é medo de ser mãe de menina, mas de que as
filhas passem pelas mesmas violências que elas passaram.
Recentemente em um passeio onde eu me divertia, dançava ao som das músicas que animam o verão, um homem me disse:
— É daqui que começamos a passar a mão.
Motivo, é quando a noite se inicia e os homens se veem no direito de passar a mão nos corpos femininos, e, pasmem, esse comentário veio do
que nós chamamos de um homem bom.
Como mulher pensei tanta coisa naquele momento e me senti pequena, é o momento que o opressor vence, é algo tão sério, tão profundo que eu não consegui responder, não por não saber como responder, mas por não conseguir compreender como um homem pode ter a ideia de que ele pode simplesmente passar a mão em uma mulher tirando da maioria de nós o direito de se divertir, de andar livremente.
Descobri o peso de ser mulher e a crueldade masculina aos doze anos, enquanto eu e minha irmã caminhávamos alegremente pelas ruas do bairro, um grupinho composto por três garotos estava sentado na calçada, passamos e veio o assovio acompanhado de risos, ignorei. Três passos à frente e um deles se levantou e passou a mão nas minhas nádegas, foi a primeira vez que senti ódio, voltei e dei muito soco no garoto, até minha irmã me tirar de cima dele.
Adulta, perdi as contas de quantas vezes precisei conviver com a ideia masculina de que o corpo feminino é público.
Às vésperas do carnaval, reflito sobre o medo de ser mulher.
Não gosto de carnaval, na verdade não gosto de conviver com o aumento de importunação nessa época, no fundo eu gosto do carnaval.
Não gosto de locais excessivamente lotados, na verdade eu gosto, o problema é que esses locais me tiram o direito de ser humano.
Quando penso no comentário de um homem que não percebe o que ele está dizendo quando entende que é normal passar a mão em uma mulher, dentro de mim tudo que vejo é um menino que nunca amadureceu sua sexualidade, e vejo em mim uma menina que foi obrigada a aprender a ser mulher muito cedo.
A desestrutura social que dá ao homem o aval de ser imaturo, infantil e violento e a obrigação de amadurecer e nunca mais ter um momento de relaxamento mental cria uma distância enorme entre homens e mulheres atualmente.
Como mulher espero que os “homens bons” entendam que a maturidade é também para os homens e que evoluam, repensem e assim possamos reconstruir novos padrões sociais onde mulheres e homens convivam com respeito e igualdade.
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“Apaixonada pela vida em todas as suas formas! Mãe, avó, artesã do crochê e escritora por vocação. Encontro inspiração na natureza e tranquilidade nas trilhas da montanha. Palavras e linhas são minhas ferramentas para criar e compartilhar amor.”
Autora de três livros publicados, colunista e integrante de uma comunidade literária.
Atualmente reside em Cachoeiro de Itapemirim-ES.