Difícil enganar
Flávio adota discurso para parecer menos radical e mais responsável
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Com as eleições se aproximando, fica cada vez mais evidente a estratégia adotada por cada candidato. Não se trata apenas de propostas, trata-se de narrativa, de reposicionamento e de construção de imagem. Em ano eleitoral, ninguém fala por acaso.
Flávio Bolsonaro, por exemplo, tem buscado apresentar uma versão mais moderada de si mesmo. Em postagens recentes nas redes sociais, passou a condenar o racismo e, para surpresa de muitos, defender a ciência e a pesquisa realizada nas universidades públicas. O discurso é cuidadosamente calibrado: menos confronto, mais institucionalidade; menos radicalismo, mais responsabilidade.
À primeira vista, alguém menos atento pode enxergar ali uma guinada sincera. Afinal, condenar o racismo e valorizar a produção científica são posições que dialogam com princípios democráticos básicos. No entanto, quem acompanhou a política brasileira com o mínimo de atenção nos últimos anos não será enganado.
O partido ao qual Flávio pertence, o Partido Liberal (PL), construiu sua identidade recente sob a liderança de Jair Bolsonaro. O ex-presidente já foi condenado judicialmente por falas de cunho racista e, durante a pandemia de COVID-19, adotou postura reiteradamente negacionista. Em diversos momentos, minimizou a gravidade da doença, questionou a eficácia das vacinas e confrontou recomendações científicas amplamente respaldadas pela comunidade médica.
É justamente esse passado recente que torna o novo discurso difícil de assimilar sem desconfiança. Afinal, Flávio sempre esteve politicamente alinhado ao pai. Nunca rompeu publicamente com suas posições centrais, nem demonstrou divergência substancial quando o debate era ciência, vacina ou universidades públicas. Ao contrário, construiu sua trajetória sob o mesmo guarda-chuva ideológico.
Diante disso é muito fácil perceber que o discurso de Flávio é apenas uma estratégia eleitoral cuidadosamente planejada para ampliar o eleitorado. Em disputas acirradas, moderar o tom pode ser um caminho para alcançar eleitores que rejeitam radicalismos, mas não querem abandonar completamente o campo político em que sempre votaram.
Porém, a política é feita tanto de memória quanto de discurso. E o eleitor, especialmente aquele que acompanhou os últimos anos com atenção, sabe comparar o que se diz hoje com o que se fez ontem.
Se Flávio Bolsonaro conseguirá convencer alguém de que representa moderação e compromisso genuíno com a ciência e com o combate ao racismo, o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: em ano eleitoral, toda palavra é cálculo e toda mudança de tom merece ser observada com lupa.