Planaltina
Benedito e as escolhas erradas
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Benedito era um tipo interessante, um tanto violento, é verdade, mas tais características logo despertaram o interesse por parte de Odorico, espécie de líder do crime quase organizado na região de Planaltina, cidade mais ao Norte no Distrito Federal. No entanto, tudo indicava que, aos olhos do chefão da bandidagem, o jovem havia tomado caminhos estranhos e, apesar desse flagrante desvio, Odorico, ainda assim, acreditava que os erros de Benedito poderiam ser corrigidos com o tempo. Bastaria um pouco de sorte e, dependendo dos rumos, um empurrãozinho.
— Você tá maluco, moleque? Os teus pais não te deram educação? Só não te dou uma boa surra porque fui amigo da sua avó.
Diante do bandido, Benedito permaneceu mudo, mas a tremedeira nas pernas e o suor escorrendo pela testa diziam tudo. E a avó do rapaz, Sônia, realmente tinha sido muito amiga do Odorico, a ponto de haver suspeitas de que seu único filho, Álvaro, fosse fruto de tardes tórridas de amor com Odorico. Todavia, esse era assunto que raros comentavam, apesar da flagrante semelhança física entre o chefão e o pai de Benedito, que, por acaso ou não, possuía as feições parecidíssimas com o genitor.
— Benedito, por acaso o gato comeu a sua língua?
— Não, senhor.
— Então, o que te deu na telha de passar pro lado do inimigo?
— Seu Odorico, é que preciso de um emprego.
— Hum! E você foi me arrumar logo ser polícia? E sabe o que vai acontecer com você?
— Não, senhor.
— Hum! Com esse seu gênio explosivo, logo vai se tornar o mais odiado polícia. E você sabe o que acontece com esses tipos, né?
— Sei sim, senhor.
— E ninguém vai te dar guarida. Ou você acha mesmo que os seus coleguinhas de farda vão te proteger?
A conversa poderia tomar uma direção mais apaziguadora, com Benedito entendendo os conselhos do Odorico. Que nada! Apenas agradeceu a preocupação e, virando as costas para a razão, foi viver a vida de homem da lei. Entretanto, o tempo é o senhor de todas as coisas e, quase cinco após, Benedito estava desempregado. O motivo? Ah, aqui vale um breve parêntese.
Benedito, valendo-se da autoridade que lhe havia sido imbuída pelo Estado, imaginou que poderia extravasar toda a sua índole violenta. A princípio, foi até incentivado por seus colegas de profissão, que perceberam que aquela qualidade ou defeito, dependendo das perspectivas, seria extremamente útil para combater a criminalidade. O problema é que o gajo se tornou réu por tortura e, após ser condenado, recorreu. Perdeu em todas as instâncias e foi expulso da corporação.
Odorico, que acompanhara a trajetória do neto de Sônia, mandou chamá-lo. E, assim que o ex-policial chegou, ofereceu-lhe café e pão de queijo.
— Obrigado, seu Odorico, mas acabei de almoçar.
— Pois tome ao menos o café.
— Obrigado.
O chefão observou o alquebrado por um instante e, em seguida, falou sem rodeios.
— Benedito, conheço sua índole e, por isso mesmo, o venho observando desde que você ainda era um molecote. Seu pai, infelizmente, é um frouxo e, por isso mesmo, preferi mantê-lo afastado dos negócios. Mas você é diferente. Você é muito útil. E fique certo de uma coisa: desde que seja leal, aqui ninguém solta a mão de ninguém.
E foi assim que o Benedito se tornou braço direito do Odorico. Agora, quanto ao boato de que ele seria neto do chefe do crime quase organizado de Planaltina, talvez não passe de fofoca.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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