Asa Norte
Seu Gegê e o etarismo
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Gervásio Guimarães, o seu Gegê, era um dos mais notórios frequentadores do Bar do Bosco, bem ali na 709 Norte, em Brasília. Um tipo, no mínimo, ainda recordado por parte dos que tinham por hábito ir ali, mesmo que fosse para comprar cigarros ou dividir uma breve cerveja com amigos.
Beirando os 90 anos, o sujeito era viúvo há pelo menos duas décadas, sem filhos, cachorro, gato, papagaio ou aquário para se preocupar, chegava ao local duas ou três horas após o almoço. Raramente fazia o pedido à mesa, preferia a crueza do balcão. Sentava-se em um dos bancos altos, não aparentava preferência, mas evitava os próximos ao banheiro.
Dependendo do movimento, Bosco, o dono do boteco, dava certa atenção ao cliente assíduo. Não era questão de bajular o coroa, mesmo porque, quando muito, seu Gegê não bebia nada além de um suco de laranja ou uma água com gás. A questão era outra. É que o comerciante ficava incomodado com certos indivíduos que se aproximavam do idoso para lhe contar as maiores mentiras, como se velhice pudesse ser alvo de troças,
Se o Bosco parecia inconformado com aquela situação, não se podia dizer o mesmo do seu Gegê. Na verdade, ele parecia até se divertir e, muitas vezes, se fazia de desentendido por conta de algum comentário carregado de etarismo.
Intrigado com o comportamento passivo do seu Gegê, Bosco, em determinada ocasião, o questionou como é que ele aguentava aquela conversa fiada. Seu Gegê apertou os olhos miúdos e, com o sorriso que a dentadura lhe permitia, disse:
— Bosco, meu amigo, nem ligo se a conversa é fiada. Nesta altura da vida, o que me importa é conversa, qualquer que seja. Sou praticamente um enterrado vivo no deserto do esquecimento.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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