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O buraco da Agulha (Parte 1)

O jogo

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Após descerem do avião e já na área de desembarque, Paul e Robert, dois jornalistas mais do que colegas e amigos de longa data, observaram um trio ostentando um cartaz onde lia-se: “HARRY WILSON E GEORGE NIXON”.

Tomados por um espírito pândego muito próprio da essência de alma da dupla, trocaram olhares ladinos e, marotamente, concordaram em fazer uma brincadeira de gosto duvidoso.

Aproximarem-se do trio, dois homens e uma mulher, sugerindo assim que eram as pessoas mencionadas no imenso cartaz.

— Mestres Harry e George? perguntou a mulher.

Sorrindo, Paul respondeu:

— Quem mais? Prazer, sou o Harry!

— Muito prazer, estávamos ansiosos por conhecer vocês, falou um dos homens, visivelmente emocionado.

— O prazer é nosso, sou George, replicou Robert, apertando a mão dos desconhecidos.

— Podemos ir então, mestres? questionou o outro homem do trio.

Depois de novo olhar cúmplice entre a dupla, Paul obtemperou:

— Antes, se não se importarem, gostaríamos de tomar um café reanimador.

— A viagem foi longa e estamos precisando de um café bem quente, complementou, Robert.

Assim – imaginou a dupla de gaiatos – eles esperariam os verdadeiros Harry e George aparecerem e, depois, pediriam desculpas pelo “mal-entendido”.

Durante o café, demonstrando viva admiração, os três recepcionistas apresentaram-se aos recém-desembarcados:

— Eu sou Richard, coordenador-chefe da organização em New York, qualquer coisa que vocês precisarem podem pedir para mim ou para a Heidi.

— Jeff, assistente de Logística e motorista, também à disposição dos ilustres mestres.

— Sou Heidi, chefe geral da segurança. Encantada, mestres! apresentou-se a mulher.

Surpresos com tantas mesuras e deferências, Paul (Harry) e Robert (George) falavam e observavam insistentemente a área de desembarque, quando, para espanto (e deleite) de ambos, Heidi observou:

— Sei que os mestres nunca permitiram que ninguém publicasse fotos dos seus rostos e que também nunca deram entrevistas à mídia… sinceramente, eu não imaginava que vocês pudessem ser homens tão charmosos.

Passados vinte minutos de conversação sobre as condições do tempo na cidade e outras aleatoriedades, Richard falou:

— Bem, agora que vocês já acabaram o café, creio que devem estar ansiosos para chegar ao hotel.

— Ademais, as regras de segurança recomendam que vocês não fiquem expostos em público por muito tempo, acrescentou Heidi, carinhosamente.

— A limusine já está a postos, complementou, Jeff.

Quando Robert começou a esboçar o que seria um esclarecimento da situação, Paul interrompeu o parceiro:

— Está certo, amigos! Mas antes precisamos ir ao toalete. Vamos, George?

Afastando-se da mesa, a dupla confabulou:

— Harry, quer dizer, Paul, já é hora de terminarmos a brincadeira, não concordas?

— Calma, amigo, a coisa está divertida! Faremos isso no hotel, está bem?

— Sei não, não estamos indo longe demais?

—Tranquilo! No hotel, diremos que a nossa organização costuma usar codinomes e que nos confundimos com a situação.

— E se os verdadeiros Harry e George ligarem para eles?

— Ora, diremos a mesma coisa, que foi um mal-entendido.

— Está bem, mas se ninguém ligar, chegando no hotel, esclarecemos tudo.

Depois que a portentosa limusine começou a rodar, o trio de recepcionistas arriscou uma conversação mais intimista com os dois ilustres e admirados recepcionados:

— Mestres, depois da Bíblia, a última obra de vocês é o livro mais importante da História, eu não canso de ler e reler, elogiou Richard.

— Ah, obrigado, mas não chega a tanto, ponderou o suposto escritor-ideólogo.

— Concordo inteiramente com o Richard, mestres! “O jogo” é a luz que a nossa organização precisava: inteligência, precisão e estilo incomparáveis, derreteu-se Heidi.

— Nem tanto, senhorita, é apenas uma história sobre um jogo, tentou minimizar um hesitante “George”.

— Como assim? Vocês escreveram que o destino da humanidade depende do resultado desse jogo, objetou Richard.

— Ah, claro, é que nós gostamos de escrever por metáforas, tentou explicar “Harry”.

— Mal posso esperar para ouvir a palestra de vocês, falou Jeff, o discreto motorista-assistente de logística.

— Palestra? deixou escapar, “Harry”.

— Sim, a palestra de vocês hoje à noite! Todos da Turma devem estar ansiosos por isso, veio gente de todos os continentes para assistir e confraternizar com vocês, falou animadamente Heidi.

— Turma? De todos os continentes? Isso é ´serio? perguntou um cada vez mais atônito “George”.

— Ah, além de geniais, vocês são também muito modestos, elogiou Richard.

— A Agulha não poderia estar melhor servida de ideólogos, derreteu-se novamente Heidi.

— Ah, sim, a Agulha…exclamou Harry.

Nesse momento, um barulho ensurdecedor interrompeu a conversa no interior da limusine.

Imediatamente, Jeff parou o veículo e, agilmente, Richard e Heidi saltaram empunhando duas espantosas pistolas.

Após vasculharem atentamente o entorno, os agentes da Agulha tranquilizaram os “ideólogos” da organização:

— Gente, foi só um pneu que estourou, falou Heidi.

— Sem problemas, está tudo sob controle, acrescentou Richard.

Sentados no banco de trás, “Harry” e “George” suavam frio.

— Ainda bem, conseguiu articular “George”.

— Dessa escapamos, murmurou “Harry”.

Após Jeff e Richard trocarem o pneu avariado, a limusine seguiu o seu percurso.

— Que susto, comentou “George”.

— Nem me fale, concordou “Harry”.

— Fiquem tranquilos, mestres, eu faria qualquer coisa para proteger vocês, disse docemente Heidi, abrindo a blusa e deixando à mostra parte dos seus belos seios.

Embasbacados, Paul e Robert conservaram um silêncio repleto de pontos de interrogação.

— Amigos, preciso tomar meu remédio para pressão e acabei de lembrar que esqueci de trazê-lo, podemos parar em uma farmácia? disse Paul, ofegante.

— E eu preciso de uma aspirina, replicou Paul.

— Claro, mestres, logo à frente tem uma, respondeu Richard, com presteza.

Após a limusine estacionar, os “mestres” saíram do veículo e entraram na farmácia sob o olhar vigilante de Heidi, que também havia saltado do veículo. Atenta como um fiel cão de guarda, a chefe da segurança postou-se na porta do estabelecimento.

— Paul, isso está ficando perigoso, não é melhor cairmos fora logo?

— Está brincando, Robert? Essa história pode nos valer um prêmio Pulitzer. Vamos ficar firmes e ver no que vai dar.

— Sim, se sairmos vivos, né? Jogo, Turma, Agulha, seguranças armados… o que mais nos espera?

— Não é emocionante? Deixa rolar… e essa Heidi é muita gata!

— Verdade! E parece que ela gostou de nós!

Após a limusine retomar o seu percurso mais uma vez, Richard expôs a programação do evento aos dois “mestres” palestrantes:

— Chegaremos ao hotel às 18 horas, às 19 haverá uma reunião social para os convidados da Turma descontraírem e fazerem o primeiro contato com as meninas, às 21 começará a palestra de vocês e às 22 estarão todos liberados para a festa.

—Vocês dois também estão convidados para conhecerem as meninas, se assim quiserem… acrescento Heidi, um tanto reticente e contrariada.

— Meninas? Quais meninas? perguntou “Harry”.

— As modelos que vieram de vários países para entreterem os convidados da Turma que vão assistir à palestra dos mestres sobre a sua magnífica obra, “O jogo”, esclarece Richard.

-Hum, entendi… bem, acho que é melhor nós ficarmos descansando e nos preparando para a palestra, ponderou “George”. E essa festa depois das 22 horas… do que se trata exatamente?

— Há, há, há… como se os mestres não soubessem, riu, Jeff.

Paul e Robert novamente cruzaram olhares de perplexidade.

— Heidi, nós esquecemos de trazer exemplares de “O jogo”, será que vocês conseguem dois para a preparação da nossa palestra?

— Claro, mestres, assim que chegarmos ao hotel, vou providenciar e levo pessoalmente no quarto de vocês, aliás, acho ótimo que vocês não queiram ir à reuniãozinha das 19 horas, falou Heidi, satisfeita.

…………………………………

O segundo capítulo (epílogo) do conto “O buraco da Agulha” sairá nesta terça (31).

J. Emiliano Cruz é autor da coletânea de contos A felicidade e os risíseis amores de todos nós.

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