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Entre aves

Penas, prosa e prumo

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Por favor, não me confunda com uma dessas pessoas insanas, que inventam diálogos entre animais. Sou cética, afeita a fatos e nada mais. E também não estou aqui para tentar convencê-lo do contrário, pois cabe à razão (ou a sua falta) de cada um para discernir o que é real ou divagação. Entretanto, confio no seu discernimento para afirmar que a mente humana é capaz de coisas que até Deus duvida.

Para não prolongar a conversa, digo-lhe que presenciei algo que, caso alguém de índole duvidosa me afirmasse, não lhe daria ouvidos. Faria cara de paisagem, educada que sou, mas sem tentar argumentar algo implausível. Sim, isso mesmo! Inverossímil.

Dois galos, meu amigo. Exatamente isso. Dois belos galos caipiras trocando olhares suspeitos sobre cinco ou oito galinhas. A princípio imaginei que fosse coisa da minha cabeça, mas eis que um deles, o carijó, trocou o cocoricar por vocábulos que pareciam emprestados de um volume do próprio Machado de Assis. Coisa esquisita, tenho que concordar, porém não pude refutar que aquilo se tratava de pura realidade, ainda mais quando o outro galo, de penas avermelhadas, levou a ponta da asa esquerda até o queixo e, então, inclinou a face ligeiramente para encarar as galinhas. Em seguida, voltou a olhar o companheiro e, sorridente, respondeu:

— É verdade. Elas devem estar aprontando alguma.

Isso me fez prestar atenção nas senhoras penadas. Uma mais linda do que a outra, por sinal. No entanto, em vez de frases cheias de concordâncias corretas, nada mais do que os costumeiros cacarejos. Será que apenas os galos possuíam o dom da fala?

Antes que eu pudesse chegar a alguma conclusão, eis que um pato, tentando acompanhar um marreco, tagarelava no que supus ser mandarim. Que fosse coreano ou japonês, não posso afirmar, mas certamente não era francês, espanhol ou italiano. Seja como for, o marreco parecia não dar bola para o pato e, por isso, apressava o passo.

Loucura, você pode dizer. Todavia, meu amigo, eis que algo ainda mais inusitado apareceu. Um peru. Sim, um peru, que tentava se fazer garboso, creio querer até se passar por pavão. Usava obséquio quando puxava assunto com as galinhas, que nitidamente não lhe davam bola. Ciscavam, ciscavam, ciscavam como disfarce ou em busca de minhocas.

— Laura.

Jorge, meu marido, apareceu e, de repente, todos aqueles seres falantes voltaram a ser meras aves.

— Laura, vamos embora?

— Já?

— Sim. Já estão todos no ônibus.

Não tive escolha e, então, voltei para o ônibus. Já acomodada na poltrona, abri a janela e observei por alguns instantes aqueles animais, quando tive a nítida impressão de que aquelas galinhas, uma mais linda do que a outra, me lançaram sorrisos zombeteiros, ao mesmo tempo em que os galos duelavam seus cantos: “Cocoricó! Cocoricó!”

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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