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Dona Dolores

Profecias

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Dona Dolores, uma mulher de 72 anos, residente em Floripa, acordou à meia-noite, assustada, com o telefone tocando. “Meu Deus, tomara que não tenha acontecido alguma coisa ruim com meus filhos ou meus netos”, pensou. E atendeu.

– Quero falar com Dolores Silva, por favor.

– É…é ela.

Dona Dolores, aqui é o delegado Osório, matrícula xxxxx, delegacia de Itajaí. Infelizmente, sua casa de praia foi assaltada, mas conseguimos prender os elementos. Preciso que a senhora passe na delegacia para identificar os itens roubados. Ainda hoje. Aguardo a senhora.

Logo que o delegado desligou, Dolores ligou para sua neta Jane, advogada, que morava pertinho, e pediu sua ajuda para ir a Itajaí.

– Vó, ele se identificou? Qual a matrícula?

– Se identificou sim, Jane, mas estava tão nervosa que nem anotei.

– Levo a senhora de carro e, no caminho, ligo pra delegacia de Itajaí.

Na delegacia confirmaram que de fato o delegado Osório trabalhava ali, mas não estava no momento. Este ligou em seguida, explicando que teve de se ausentar e que a identificação dos objetos furtados seria feita na casa de praia. As duas acharam meio estranho mas foram em frente.

São menos de 80 km de Florianópolis a Itajaí, Jane estacionou o carro junto à casa em pouco mais de 1 hora. No interior estavam três homens carrancudos, de mãos amarradas com cordas diante do corpo; três policiais de péssima aparência; e um indivíduo de terno, sorridente e bem falante. Jane achou esquisito, em geral os detidos têm as mãos presas por algemas atrás das costas, mas não falou nada.

– Boa noite. Sou o delegado Osório – disse desnecessariamente o homem de terno. E dirigiu-se a Dolores:

– A senhora trouxe as notas fiscais de todos os objetos da casa?

– Notas fiscais? Claro que não trouxe. O senhor não pediu isso, e claro que todos os bens dentro de minha casa são meus – respondeu ela, rispidamente.

– Então não podemos prender os três elementos por tentativa de furto, apenas processá-los por invasão de domicílio – disse ele, com um sorrisinho. Mostrou mais os dentes e acrescentou:

– E a senhora está correndo um sério risco de ser processada como receptadora de bens roubados…

Dona Dolores explodiu.

– Que tipo de delegado é o senhor? Por acaso protege os bandidos, porque a polícia prende e o senhor manda soltar? Por acaso tem rabo preso com eles?

O risadinha olhou-a em silêncio por algum tempo, depois falou:

-Olha, senhora, posso prendê-la por desacato à autoridade.

– Prende mesmo, o senhor só protege bandidos!

Jane entrou em cena.

– Doutor, minha avó está nervosa com o furto, desculpa por favor.

– Claro que desculpo – respondeu ele, sorrindo de novo. – Não vou prendê-la. Sabe por quê?

Parou de sorrir, puxou um revólver e continuou:

– Porque a senhora e a mocinha já estão presas desde que puseram os pés dentro dessa casa.

Apontou para os três “detidos” que, dando risadas de zombaria, desfaziam-se das cordas que tocavam seus punhos, sem amarrá-los.

– Não tenho rabo preso com eles, sou o chefe deles. E dos outros três, vestidos de policial. A senhora é boa em profecia, sacou logo, vou pedir que preencha um cartão da mega sena pra mim. Vai ver que fico rico numa tacada só…

O resto foi anticlímax. Pegaram os celulares das reféns, ligaram para os filho de Dolores, exigiram 400 mil reais para libertar as duas, regatearam, deixaram por 150 mil, insistiram que, se eles chegassem com a polícia, a avó e a neta morriam. Uns 90 minutos depois, Dolores e Jane estavam com os parentes, chorando de alívio.

Antes de as duas saírem da casa, o chefe da quadrilha falou a Dolores.

– Olha, nunca faria mal à senhora. Não por ser bonzinho, não sou. É que já assaltamos sua casa três vezes, e agora conseguimos uma graninha boa… Abrindo um sorriso, concluiu:

– Também vou arriscar uma profecia, dar uma de vidente. Ainda vou ganhar muito mais dinheiro com a sua família!

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