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COISANDO

PARTE 1 – A HERANÇA DAS COISAS

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”
Lucas 12:34

— Não, não e não! Já disse que é inaceitável. Eles que venham aqui para ver! Coloco todos para fora, a pontapés!

Enquanto dizia isso, Dionísio brandia garfo e faca de prata que tinha em mãos durante a refeição que ele e sua esposa faziam, à noite, numa das imensas salas da magnífica casa colonial e antiga em que residiam. Louça inglesa do século XIX. Século XIX! Dionísio fazia questão.

Ali, aquele homem sentia-se senhor absoluto. A casa parecia um organismo vivo, e tudo ele queria controlar. Quem entrou, quem saiu, a frequência e horário de trabalho das empregadas, as pessoas que telefonaram, os gastos com energia elétrica, água, o abastecimento dos depósitos na cozinha, a coisa toda. Cada pequeno detalhe era anotado por ele, revisado e arquivado ao fim de cada dia quando, sentado à mesa em seu gabinete do térreo, fazia contas escrupulosas, descendo aos mínimos detalhes.

Vinte e nove centavos faltam no troco da última ida da empregada à mercearia…

Antônia, a esposa de Dionísio, o observava, agora mais calmo. E parecia investigar no semblante do marido o momento psicológico propício para retomar a conversa.

— Eles só queriam vir ver como andam as coisas, ficariam alguns dias e depois sairiam. Eles já disseram que não fazem questão de nada. Nenhum item, nenhum só eles irão querer. Estar aqui é direito.

— Essa conversa eu já conheço, Tonica. Eles vêm aqui com a fala macia. Babujada de elogios. ‘Tio, o senhor está tomando conta de tudo isso aqui tão bem!’, como se tivessem algo a reclamar ou autorizar. São emissários delas. Mas não as autorizo a tomar conta de mim. Nem daqui! A casa é minha, é tudo meu! Daqui a pouco teremos de aturar essa gente sempre aqui. Dividindo o que é meu. Não admitia antes, não admitirei agora. Vão ao raio que os partam.

Antônia percebeu a rouquidão característica da raiva em seu marido, a voz que subia uma oitava, o terrível cacoete de coçar nervosamente a barba quando irado. Para ter um pouco de sossego durante a refeição que, no fundo, apreciava, resolveu esquecer o assunto. Tocar em amenidades. Evitar novas alterações do velho.

Dionísio se referia, com toda essa fúria, às irmãs, aos cunhados, mas, especialmente, aos sobrinhos, que haviam cogitado, em carta, a hipótese de virem passar uns dias na antiga casa, de férias, rever Antônia, tia de quem muito gostavam, e mesmo o rabugento tio, que era sempre uma curiosidade interessante. Mas, nos últimos anos, ele evitava contato com os seus, queria distância.

Dionísio era filho de uma antiquíssima família daquela cidade. Nascera e fora criado em fazenda. Desde cedo, interessado em tudo que dizia respeito à família, seus antepassados e a história. Fizera questão de conhecer cada detalhe dos vivos e dos mortos, dos objetos herdados e passados de geração em geração por seus familiares, os quadros, os tapetes, as pratarias, o mobiliário e as joias. Joias valiosíssimas. Tudo o fascinava.

Ocorreu de o pai de Dionísio fazer uns maus negócios, se alterarem as conjunturas econômicas do café, a Bolsa quebrar e ele perder a fazenda. O Brasil se transformava, o dinheiro mudava de mãos, a atividade rural não era mais tão rentável. A família, composta pelos pais de Dionísio, duas irmãs mais novas e ele, então com 17 anos, foi residir no velho casarão, bem no centro da pequena cidade, que pertencia à família havia quase tantas gerações quanto tinham a fazenda. É claro que, sem as terras, a família sentiu-se pobre. Não era de fato. Conservaram algum patrimônio em mãos. Imóveis comerciais na cidade, renda de aluguéis, reserva de dinheiro. Móveis e objetos de todo tipo foram trazidos da casa da fazenda para guarnecer e embelezar o casarão da cidade, fora o que já se encontrava ali. Dionísio, numa espécie de paraíso particular, fixara-se em organizar e catalogar todas as coisas, descrever, em livros de registro, suas histórias e, com o tempo, passou a revisar constantemente os detalhes escritos, ampliando-os e corrigindo-os com novas informações recebidas.

Livro do registro de pratarias e utensílios diversos. Candelabros de estanho recebidos por minha tataravó, baronesa de Cunhambebe, de presente de casamento a 20 de maio de 1843. Excelente estado. Limpos no último dia 14 de junho com os produtos adequados.

Abaixo, um desenho detalhado do par de magníficos candelabros que o próprio Dionísio fizera na página de anotação.

Em outro registro: corrente e relógio de ouro, comprados por meu avô paterno, no dia 31 de janeiro de 1884, durante viagem à capital. 50$800 réis. Foi o regulador das horas de sua vida durante 33 anos, até sua morte, às duas horas da tarde, em 2 de fevereiro de 1917, nesta casa, no terceiro quarto de cima, à direita, a partir da escada, vitimado por uma apoplexia.

Os dois ou três anos posteriores à perda da fazenda abalaram o pai de Dionísio. Criou-se um vácuo na vida da família. Nada mais era regido pela autoridade patriarcal, então em voga. Nesse vazio, Dionísio ficava cada dia mais responsável pelo acervo de coisas da casa, repleta de antiguidades. Valiosas, bonitas. Nada o interessava, nem o distraía, além do que ele pudesse catalogar, organizar, admirar e mostrar para as visitas.

— Este lustre tem história! Foi o primeiro de luz elétrica da antiga fazenda de papai. Quando instalaram a pequena usina geradora no Ribeirão de Cima, inaugurada a 21 de abril de 1902, com projeto do engenheiro alemão contratado especialmente para isso, chamado Ernest Hildendorf. Já iluminou muitos jantares da família com visitas importantes que por ali passavam. A estatueta de prata, naquele aparador próximo à chapeleira de espelho bisoté, veio de França, presenteada a meu tio-avô, o Visconde de Monganguá, por um seu colega do Senado do Império, no ano de 1870. Há a dedicatória gravada.

As tiradas de um jovem Dionísio, que encontraríamos senhorzinho da casa naqueles tempos, entretinha visitas, mas irritava as irmãs. Ele as forçava a se interessarem pelos mesmos assuntos, a cultivarem as memórias dos entes passados, os objetos, tudo o que impregnava a casa e seu acervo. E as meninas tinham uma resistência natural a esses assuntos. Sentiam e repeliam o azinhavre de “coisas velhas”. Para a mãe, toda essa marcha era indiferente. Mas a vida foi passando e, logo, o chefe da família, saindo da letargia em que se instalara, pensou numa solução.

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(continua amanhã no Café Literário)

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