Curta nossa página


COISANDO

PARTE 2 – O INVENTÁRIO DO MEDO

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

“Há um grave mal que vi debaixo do sol: riquezas guardadas para dano do seu dono.”
Eclesiastes 5:13

Venderiam tudo de dentro da casa, em leilão ou a comerciantes especializados, e a própria casa se fosse necessário. Iriam para um sobrado modesto na rua da Estação, também de propriedade da família. Segurariam outros imóveis, para contarem com a renda dos aluguéis, e investiriam fortemente na indústria, então incipiente na região.

À menção da novidade, Dionísio discordou. Depois, vendo que a opinião do pai estava formada e que o acervo ao qual ele tanto se devotara estava seriamente ameaçado de uma diáspora com fins econômicos, se desesperou. Ameaçou interditar o pai, jogar-se de uma janela, enforcar-se no quintal.

— Afinal, o senhor meu pai não respeitará a história da família? Devastará nossas memórias para investir num negócio duvidoso?! A estirpe de barões e viscondes exercerá atividade fabril?!”

As semanas seguintes foram usadas pelo pai para convencer o filho a se juntar ao seu partido. Teria-o como braço direito nos novos empreendimentos, haveriam de projetar de novo a família e enriquecê-la para as gerações vindouras. Estava decidido. Passar todos aqueles objetos nos cobres, desfazer do próprio casarão, eram parte essencial do plano. A perda da fazenda e a crise o deixaram sem muitos meios para investir…

Mas eram inúteis os esforços paternos. O filho se encontrava irredutível, e nem a proposta do pai de enriquecerem juntos, os apelos por seu apoio e concordância, moveram Dionísio de sua intransigência.

A cada dia, Dionísio mais se julgava dono e único responsável pelo vasto acervo, que seu pai desejava dilapidar. Via os objetos da família como um museu particular, um santuário do qual era supremo curador.

Assim passou-se um ano. Neste período, o pai de Dionísio adoeceu de repente. Doença renhida, que não cedia aos intensos tratamentos realizados por médicos que eram chamados de fora. A família, por causa disso, entrou em dificuldades, cada vez piores. E mais caía nas mãos de Dionísio, que vinha se tornando, além de especialista nos itens da casa, o controlador que se mostraria por completo na maturidade. A crescente revelação de suas atitudes despóticas prejudicava especialmente as irmãs, pela enfermidade do pai e a indiferença da mãe. Antes, cuidava dos objetos. Agora se arvorava em cuidar de todo o resto, das empregadas, das compras, das visitas, e até da roupa de cama que era usada.

O pai de Dionísio morreu. A mãe não tardou muito a segui-lo ao cemitério. Nesse meio tempo, as irmãs casaram-se bem, e Dionísio, que ficou administrando a herança antes da partilha final, ainda as proveu de dote, como acontecia na época.

Depois, passou a achar que nada mais devia a elas, e que todo o resto era seu. Os cunhados resistiram à ideia, e isso os colocou sempre em conflito.

Dionísio, por sua vez, pretendeu constituir família, e acabou casando com Antônia. Descendente de família de barões do café, mas de outra cidade, ela conheceu Dionísio quando ambos eram ainda crianças, e se reencontraram pelos 22 anos de idade. Noivado curto, casamento discreto, ela não o conhecia muito bem. Mas com o tempo, apesar de suas manias, foi se afeiçoando a ele. Dessa união não houve filhos.

De início, a vida do casal foi acompanhada pelas irmãs e sobrinhos de Dionísio, com os quais tinham bastante contato. Dionísio recebia bem as irmãs. Até que um dia, caíram-lhe na conta de interesseiras.

Foi por ocasião de uma visita, na qual ambas pretenderam levar do velho casarão uma lembrança cada uma. No fundo, nem era bem verdadeira essa vontade, mas o faziam mais para implicar com o irmão. A irmã mais velha, Dione, desejou um espelho de sala enorme, com moldura de prata. A outra, Diana, queria um par de grandes jarras de porcelana, gravadas com o brasão de armas do Império do Brasil, que ficavam cada qual em um suporte de madeira ricamente trabalhado.

Durante o jantar, Dionísio resolveu pôr as irmãs à prova. Cada uma deveria dizer em que circunstância aqueles objetos vieram para o acervo. Como ambas ignoravam a história, ele passou-lhes uma descompostura e disse:

— Viram?! Eu é que conheço a história de cada coisa aqui dentro. É tudo meu por direito. Tudo meu! Aquele espelho foi comprado de um comerciante especializado em objetos italianos, em 1895, por nossa mãe, para seu vestíbulo na fazenda. As jarras foram arrematadas do palácio da própria Princesa Isabel, num leilão promovido por abutres republicanos após o 15 de novembro de 1889, por nosso tio materno Capitão Ferreira da Costa. Vocês não sabem de nada, e não cuidariam como eu, portanto o espelho e as jarras ficam é aqui mesmo. Tudo meeeeu!!! — e coçava nervosamente a barba.

As irmãs nem se deram conta, mas Dionísio passou a vê-las como uma nova ameaça à integridade do acervo. Visitas, pedidos, depois ver as peças tão queridas saírem pela porta? Nem pensar. Não aceitaria mais ali aquelas duas víboras…

Os sobrinhos, percebendo a provocação de suas mães e a reação desproporcional do tio, começaram a implicar de propósito. Foi o bastante para serem também inscritos na lista dos amaldiçoados.

— Tio, quero uma joia da vovó.

— Titio, porque o senhor não dá essa estátua para mim?

— Tio, esse daguérre da Tia Córdula eu posso levar?

— Tio, quebramos sem querer uma cadeira da mesa do salão lá do andar de cima. Mas conseguimos remontar. Desafio o senhor a descobrir qual foi.

Com o tempo, todo o contato pessoal da família reservou-se a ocasiões formais. Regularmente, apenas cartas. Pelas cartas, as irmãs não viam graça em implicar.

Dionísio agradecia a atenção, prometia escrever sempre, falava da saúde, do tempo, das dificuldades. As irmãs respondiam sobre o crescimento dos meninos, seus noivados, convidavam ao casamento, que não se importasse com as dificuldades,
tudo passaria. Nossa Senhora havia de prover.

…………………
(continua amanhã no Café Literário)

 

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.