Curta nossa página


COISANDO

PARTE 4 – AS PESSOAS MORREM, AS COISAS SÃO ETERNAS

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

“Semelhantes a eles se tornem os que os fazem, e todos os que neles confiam.”
Salmo 115:8

Foram passando as semanas. Tempos em que Dionísio nem sabia direito o que fazia. Lembrava, de vez em quando, de comer. Ia à cozinha e preparava algo de que dispunha. Seu conhecimento era pouco nessa área. E reparou que devia catalogar os itens que encontrou lá e haviam sido negligenciados. Garfos e facas de uso corriqueiro, pratos de estanho e de esmalte (a louça já passara toda para os livros próprios), panos de prato, guardanapos, toalhas de mesa. Quanta coisa ainda precisava fazer. Os dias se sucederam com novas tarefas em vista. Mas havia uma diferença. Sua cabeça, antes organizada e lúcida, embora monotemática, havia passado por uma pequena transformação. Cada dia mais se confundia e atrapalhava. Isso se mostrou nos registros:

Pano de prato biquinho azul monograma indecifrável. Pedaço de carne seca pendurada no fogão. Pregador de roupa. Matéria firme. Divisória na cozinha. Ladrilho hidráulico rachado flor de lis
Palha de milho encontrada no fruteiro. Não sei desde quando está ali. Talvez tenha vindo de
outra geração de pessoas   

vieram aqui de noite. Aquela garrafa não estava
sal
fósforos: 46 novos 12 queimados

Os registros metódicos de antes eram agora um amontoado de anotações desconexas. Se antes podiam até contar com alguma relevância, passaram a traduzir as coisas mais inúteis. Depois, já não se compreendia nada.

Pote de colocar chá. Erva
NÃO ENCONTREEEEI                                                              beber sozinho. Café
Cafééééé

caf

FEA fec fec

a

AAAAAA  aaaa

Dionísio parou de frequentar a cozinha alguns dias depois de sua última anotação. Sentia que o braço direito já não mais lhe obedecia. Um rigor estranho tomou conta também de seus tornozelos, e depois dos joelhos. Diante da dificuldade de movimento, já não mudava de roupa para dormir. Passou a ficar sempre com o mesmo paletó cinza e calças de linho com meias vermelhas e um par de sapatos marrons. Toda a vestimenta cada dia mais amarrotada e suja. Mas era melhor do que ficar de pijama, pensou ele durante um resto de raciocínio. Em princípio, ainda dormia na cama e passava os dias ou no gabinete de trabalho, ou num sofá de uma das salas do andar superior olhando para objetos do acervo. Depois, passou a dormir nesse sofá, pois não sentia mais disposição em subir e descer as escadas com frequência, e assim achou mais prático. Ao menos, sentado no sofá, ficava voltado para uma janela de onde conseguia ver o jardim da casa e uma boa parte do movimento na rua. Eventualmente passou-lhe pela cabeça o tempo que perdera olhando para dentro, quando podia ter reparado mais no que se passava lá fora. Mas logo esse pensamento se esvaneceu.

E foi sentado neste sofá que, um dia, ocorreu algo surpreendente.

Com o raciocínio interrompido há dias, um relâmpago de memória o acudiu quando, mirando uma mesinha sobre a qual se despejava uma réstia do sol da tarde, percebeu algo a brilhar em meio a duas caixas de rapé. Na hora lembrou das abotoaduras desaparecidas. Certamente as encontrara! Então não foram surrupiadas, apenas estavam no lugar errado. Seria possível? Não… Nunca as guardaria ali. Não estava louco. Certamente tinha sido uma das empregadas que, sob o risco de ser flagrada no furto após Dionísio dar conta do sumiço, resolvera deixá-las ali para serem descobertas de propósito e tudo se acalmasse. Seria isso?

Dionísio até se surpreendeu com este pensamento, uma vez que não pensava mais em nada. O problema é que seus olhos o poderiam estar enganando, por isso planejou levantar-se e ir até a mesinha de onde vinha, aparentemente, o brilho das pequenas joias. Sem dúvida, seria um esforço enorme. Desistiu. O verniz lustroso da mesinha refletia os raios de sol, e dificultavam a visão de Dionísio. Ele quis levar a mão direita à barba para coçá-la nervosamente, mas não conseguiu.

No entanto, num esforço fenomenal, conseguiu virar-se no sofá, ficando de costas para uma janela por onde entrava o sol, interrompendo assim a passagem dos seus raios, e evitando o ofuscamento. A estratégia não deu tão certo, porque na mudança de posição, e considerando a limitação de seus movimentos até de cabeça, já não conseguia ver exatamente o ponto em que se encontrava supostamente o par de abotoaduras, que ficou encoberto pelas caixas de rapé. Dionísio deixou pender a cabeça para o lado esquerdo, e nada.

Mas percebeu que não podia voltar a cabeça para a posição anterior. A mão direita não se mexia, a esquerda também não respondeu. O tronco, as pernas e todo o resto do corpo já não respondiam ao seu comando. Isso o desesperou por uns instantes e ele pensou compreender o quadro… Era tão apegado às suas coisas, aos objetos inanimados da casa, que aos poucos, por receio de ter um destino desfavorável do qual protegera o acervo por décadas, talvez tenha se tornado ele mesmo também uma coisa.

Uma coisa daquele acervo. Um objeto inanimado, sem vontade própria, sem movimento, sem ninguém para cuidar dele.

Uma coisa.

Seria uma sensação de morte? Não, a morte talvez fosse mais intensa. Mais definitiva. A morte atacaria as pessoas. Mas as coisas prosseguiriam, mesmo desprezadas ou abandonadas. Dependendo da matéria de que fossem feitas, superariam a vida dos homens. Coisas não morrem. Dionísio não estava morrendo. Estava coisando. Não somente virando uma coisa, mas coisando-se, degradando-se lentamente até a imobilidade final, para depender dos outros — que não viriam mais — até para se mover minimamente.

O raciocínio ia se apagando. O desespero de uns instantes anteriores havia se transformado numa conformação. Até que virou indiferença.

E o último pensamento de Dionísio foi um breve lampejo em sua mente obliterada:

“Se não tivesse me virado para olhar melhor se as abotoaduras estavam na mesinha, ao menos eu teria ficado com a cabeça voltada para a janela…”

……………………………….

F I M

 

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.