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Eterno voltar

A Dança que não acaba

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Ela não tem começo nem fim declarado. Apenas um eterno voltar ao mesmo lugar, mas nunca igual.

Lá embaixo, no ventre azul do oceano, uma gota qualquer se cansa de ser salgada. O sol, esse velho insistente, a acaricia com dedos de fogo.

Ela se solta, vira vapor, abandona o peso do mar e sobe. Leve como um suspiro. Invisível. Livre.

Viaja. Cruza léguas de ar, junta-se a outras gotas que também fugiram de rios, de lagos, de folhas suadas pelas plantas. Juntas formam nuvens – algodão cinza carregado de promessas. O vento as empurra, as molda, as leva para cima das montanhas, para dentro das cidades, para os telhados de zinco onde crianças ainda acreditam que a chuva é o céu lavando a cara.

Então vem a hora da queda.

A condensação as faz pesadas de novo. Lágrimas grossas despencam. Algumas viram neve que cobre os picos em silêncio branco; outras batem na terra vermelha como tambores mansos.

Pingam nas folhas, escorrem pelas pedras, enchem poças que viram riachos que viram rios que correm gritando de volta para o mar.

Mas nem todas voltam tão depressa. Algumas se infiltram. Desaparecem no solo como quem entra em casa depois de longa viagem.

Alimentam lençóis subterrâneos, acordam sementes adormecidas, molham raízes que ninguém vê.

As plantas bebem, transpiram, devolvem ao ar um vapor doce, cheiro de mato molhado. E o ciclo recomeça: do verde para o céu, do céu para o verde.

Eu penso nisso quando bebo um copo d’água fresca. Essa gota que toca meus lábios já foi oceano, já foi nuvem, já foi suor de uma bananeira no quintal de alguém, já foi lágrima de criança que caiu no barro.

Ela circulou por bilhões de anos sem nunca se cansar. Sem nunca dizer “já dei o suficiente”.

E nós? Nós somos parte dessa dança sem perceber. Nosso corpo é quase água. Nosso sangue é rio interior. Nossa respiração devolve vapor ao ciclo. Quando choramos, devolvemos gotas ao ar. Quando suamos no trabalho ou no amor, participamos da evaporação. Somos, sem querer, fios dessa teia imensa.

O ciclo da água não perdoa vaidade. Não distingue rico de pobre, continente de ilha. Trata todos com a mesma generosidade indiferente: molha, purifica, renova, leva embora o que sobra. E volta. Sempre volta.

Então, da próxima vez que a chuva bater na janela, não reclame do molhado. Abra a mão para fora. Deixe uma gota pousar na palma. Ela já viajou mais do que você jamais sonhou. E amanhã, quem sabe, será parte de uma flor que você vai cheirar, ou do café que vai aquecer sua manhã.

A dança continua. Silenciosa. Incansável. Eterna.

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