Curta nossa página


O Lado B da Literatura

O homem que guardou o Brasil e enterrou seu livro

Publicado

Autor/Imagem:
Cassiano Condé - IPHAN

Antes de virar nome de prêmio e guardião das igrejas, casas e cidades históricas do país, Rodrigo Melo Franco de Andrade escreveu Velórios, um livro seco, irônico e estranho sobre a morte — e quase desapareceu como ficcionista.

Rodrigo Melo Franco de Andrade foi um rapaz mineiro cercado de escritores. Nasceu numa Belo Horizonte recém-fundada, em 1898, e cresceu num ambiente em que arte e política eram uma constante. Estudou no Brasil e em Paris, passou pelo Direito, pelo jornalismo, pela advocacia, pela administração pública e por aquela zona elétrica em que os modernistas brasileiros misturavam amizade, intriga, revista literária, repartição pública e projeto de país.

Em 1937, indicado por Mário de Andrade, assumiu a direção do então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Sphan, embrião do atual Iphan. Ficou ali por três décadas. Não é pouca coisa. Rodrigo ajudou a transformar ruínas, igrejas, casarões, arquivos, imagens sacras e cidades históricas em assunto de Estado. O Brasil, que tem vocação para demolir a própria memória em nome de qualquer novidade medíocre, encontrou nele um funcionário raro: o burocrata com imaginação histórica.

Foi autor de um livro magro, sombrio, quase subterrâneo, publicado em 1936, um ano antes de ele assumir o Sphan. Chama-se Velórios. E, como o título promete, gira em torno da morte. São contos sobre mortos, sim, mas sobretudo sobre os vivos que continuam falando, calculando, lembrando mal, fingindo melhor. A pesquisa acadêmica sobre o livro observa exatamente esse ponto: a morte, nos contos, muitas vezes funciona menos como abismo existencial e mais como pequeno detonador narrativo, capaz de expor a mecânica social dos sobreviventes. Ele olha para a família brasileira sem ajoelhar diante dela. Vê a cerimônia, mas também o arranjo. Vê o luto, mas também a pose. Vê a religião, mas também o hábito. O morto, às vezes, é o menos importante do velório. O essencial está no que se revela em torno dele.

O livro teve fortuna curiosa. Velórios foi publicado originalmente em 1936 e permaneceu como sua única obra propriamente literária. Depois, Rodrigo escreveria estudos e ensaios ligados à história, à arte e ao patrimônio, como Brasil: Monumentos Históricos e Arqueológicos, Rio Branco e Gastão da Cunha e Artistas Coloniais. A literatura, aquela literatura de ficção, ficou para trás, talvez soterrada por fichas, viagens, inventários, restaurações e urgências nacionais.

Rodrigo passou a vida preservando o que o Brasil poderia perder, mas quase perdeu a própria face de escritor. Virou o homem que salvava igrejas, enquanto seu livro único ia sendo tratado como peça rara, lembrança de especialista, conversa de leitor mais teimoso. O país conservou, por sua ação, muito do seu patrimônio visível. Mas a sua pequena obra de ficção ficou como patrimônio discreto, desses que não têm placa na porta.

Talvez por isso Velórios combine tanto com ele. O livro parece escrito por alguém que sabia que as coisas desaparecem. Casas desaparecem. Famílias desaparecem. Prestígios desaparecem. Corpos desaparecem. Até livros desaparecem. O que resta é o trabalho meio ingrato de registrar, fixar, guardar alguma coisa antes que a poeira faça seu serviço.

O guardião do patrimônio começou, literariamente, como observador de velórios. Não deixa de ser adequado. Afinal, conservar também é uma forma civilizada de conversar com os mortos.

Rodrigo foi pai de um dos cineastas desbravadores do movimento do Cinema Novo, Joaquim Pedro de Andrade, e morreu em 1969.

……………………..

Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.