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Anormal cotidiano

Brasil reage a deslizes políticos frequentes em busca de pureza ética

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

O brasileiro já não se espanta como antes. Foram escândalos demais, heróis demais, salvadores demais e frustrações suficientes para produzir uma sociedade mais desconfiada, menos impulsiva e muito mais cautelosa na hora de entregar entusiasmo político irrestrito a alguém. Ainda assim, existe uma diferença importante entre cansaço e rendição, porque os números que começaram a surgir depois da divulgação dos áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro talvez revelem justamente isso. O eleitor não parece disposto a abandonar imediatamente suas referências políticas, mas começou a demonstrar desconforto, e, na política, o esfriamento costuma ser mais perigoso do que a indignação performática que domina as redes durante alguns dias.

A queda observada nas intenções de voto de Flávio não parece ter provocado migração automática para outro nome do campo conservador, e esse detalhe talvez seja mais interessante do que o próprio desgaste inicial. O eleitor demonstrou desconforto sem reorganizar imediatamente suas preferências políticas, como se parte importante da sociedade estivesse dizendo algo muito brasileiro neste momento histórico: isso me incomoda, mas ainda não sei exatamente o que fazer com esse incômodo.

Existe fadiga, mas também existem limites, e talvez tenha sido exatamente isso que as pesquisas começaram a captar silenciosamente. Durante algum tempo, criou-se a impressão de que o Brasil havia normalizado completamente o absurdo. Cifras monumentais passaram a circular com naturalidade quase obscena, personagens antes tratados como adversários inconciliáveis reapareceram abraçados, discursos morais envelheceram mal diante das conveniências eleitorais e boa parte da elite política começou a se comportar como se reputações fossem indestrutíveis e eleitorados funcionassem em regime de propriedade emocional permanente.

Talvez a realidade seja um pouco mais complexa do que isso. O brasileiro pode até tolerar contradições em níveis que assustariam democracias mais estáveis, pode absorver pragmatismos desconfortáveis e conviver resignadamente com episódios que antes produziriam desgaste muito maior. Mas continua percebendo quando determinadas figuras atravessam limites excessivamente visíveis, sobretudo quando o contraste entre discurso passado e comportamento presente se torna grande demais até para uma sociedade acostumada a improvisar racionalizações políticas diariamente.

O episódio recente talvez tenha revelado exatamente isso. O eleitor parece menos disposto a grandes cruzadas morais, mas ainda preserva reflexos importantes de desaprovação, mesmo que já não reaja necessariamente com explosões emocionais ou rompimentos definitivos. A reação agora parece acontecer de maneira mais silenciosa, retirando entusiasmo, reduzindo intensidade de apoio, esfriando paixões políticas e deixando no ar aquela sensação desconfortável de que algo perdeu consistência no caminho.

Isso não significa que o país tenha recuperado pureza ética, rigor moral ou qualquer espécie de romantismo republicano tardio. O Brasil continua profundamente cansado de si mesmo em muitos aspectos. Mas talvez ainda exista uma espécie de freio invisível funcionando discretamente dentro da sociedade, lembrando à política que fadiga não é sinônimo automático de aceitação irrestrita, porque o país pode até ter aprendido a conviver com o excesso, mas aparentemente ainda sabe reconhecê-lo quando ele se torna exagerado demais até para os padrões brasileiros.

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