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Gláucia não quer morrer agora

Braçadas contra São Pedro

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Tenho vindo para cá por recomendação médica.

— Gláucia, tu precisa se mexer. Academia. Tu precisa.

— Doutora, não gosto de gente.

— E quem é que gosta, mulher? Se eu pudesse, vivia apenas com os meus cachorros. Mas tu precisa fazer alguma atividade física.

— Caminhada da sala pra cozinha, da cozinha pro quarto vale?

— Natação. Tu gosta de nadar?

— Só se for debaixo do chuveiro.

— Você não é sócia de um clube?

— Sou. Aliás, você me lembrou de uma coisa agora.

— Do quê, Gláucia?

— Preciso cancelar o clube. Despesa demais, doutora.

— Pois não cancele. Comece a nadar. Você precisa se mexer, mulher. Senão tu morre!

Como não pretendo conhecer São Pedro tão cedo, resolvi retirar meu maiô florido do fundo da gaveta. Comprei uma touca e óculos de natação e parti para a luta. Três vezes na semana, e confesso que o tédio deu lugar àquela sensação de que a qualquer momento serei convocada para representar o Brasil nas próximas Olimpíadas.

Entre braçadas solitárias, costumo pensar na vida e nas inutilidades de tantas coisas. Meus irmãos, preocupados com filhos e netos, costumam me telefonar ou visitar. Eu os escuto, é verdade, mas com o pensamento na piscina. Que bom que não precisei matar os maridos que não tive ou abortar os filhos que a vida não me deu.

Ontem me aconteceu algo inesperado. Mal saí da piscina, duas garotas se aproximaram com aqueles sorrisos brancos da juventude. A mais magrinha, talvez a mais impetuosa, me solta essa:

— A gente é fã da senhora.

— Fã?

— É! A senhora nada muito bem.

— Obrigada.

Pensei que aquela conversa fosse terminar por ali. Que nada! A outra menina deve ter se sentido confiante e disse:

— Sabia que odiamos nadar aqui?

— Sério?

— Sabe, é que aqui só te adolescente.

— Mas vocês não são adolescentes?

— Somos, mas odiamos gente da nossa idade.

Lá estavam duas criaturas incomodadas com pessoas da própria geração. Hum! Coloquei a touca e os óculos dentro da mochila, vesti a bermuda jeans e a camisa do Vasco, calcei o chinelo e me despedi com um sorriso de gente velha, cujos dentes há muito perderam aquele brilho juvenil.

Caminhei até o meu apartamento, onde mentalmente brinquei com o cachorro do quadro que comprei no ano passado. Ele é um dálmata, muito bonito por sinal. Quando eu enjoar, presenteio alguém e compro outro. Talvez um de gato ou zebra.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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