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O doutor e a outra

A outra

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

O dr. Eugênio Marcondes estava em casa, tomando o café da manhã, quando o celular tocou.

– Alô?

– Dr. Marcondes? É da sex shop. Liguei pra…

– Um momento! – berrou Eugênio, cortando a conversa. Virou-se para a esposa e falou:

– Sinto muito querida, é uma ligação de trabalho. Vou atender no escritório.

Minutos depois, retomou a ligação, furioso.

– Você quer ferrar meu casamento? Minha esposa podia ouvir. Nunca mais mencione sex shop, fale que é da importadora – Um pouco mais calmo, perguntou:

– Por que vocês ligaram?

– Chegou a sex doll que o senhor encomendou. Quer retirar hoje?

– Claro que quero! – Incapaz de conter, perguntou suplicante:

– Ela é tudo aquilo que anunciaram?

– É sim, doutor. Linda, feita de silicone, do tamanho de uma mulher de carne e osso, parece irmã gêmea da modelo humana.

– Tá bom, passo aí hoje à tarde.

Às 16 horas, Eugênio não aguentou mais. Comunicou aos funcionários que tinha um assunto a resolver, saiu da empresa, passou na sex shop, retirou a boneca, foi pra um hotel e teve uma das melhores sessões de sexo de sua vida. Sua boca, não permanentemente aberta como a das antigas bonecas infláveis, mas fechada e com uma leve sugestão de sorriso, abria-se para a penetração do amiguinho e o envolvia suavemente, como faria uma especialista em oral; sua xaninha dispunha de grandes e pequenos lábios e clitóris, à imagem e semelhança dos da linda modelo chinesa, e o furico, ah, somente um poeta poderia descrever aquela perfeição apertadinha mas elástica, sempre disposta a acolher um visitante. Eugênio passou horas trepando, como não fazia há muito tempo, explorando os três orifícios.

Ele chegou em casa às 11 da noite e guardou Kim no porão. Sua mulher não o viu chegar e não fez perguntas, então não teve de mentir. Nos dias seguintes, dividiu-se entre a esposa e a outra, entre a matriz e a filial. Primeiro, chegava ao ápice do prazer nos braços (ô bicho pra ter nome) de Kim; depois tomava um banho, para eliminar o cheiro de sexo, e ia dormir ao lado da matriz. Às vezes comparecia, para não dar bandeira – e, na verdade, ainda gostava de transar com ela. Mas gostava um pouquinho menos a cada dia.

Após um mês dessa vida de artista sexual – não muito recomendável para um homem de 66 anos –, Eugênio chegou a duas conclusões. A primeira: estava apaixonado por Kim, desejava tê-la a seu lado em todos os momentos, dormir a seu lado, acordar a seu lado, e não apenas transar com ela no porão desconfortável. A segunda: sua esposa tinha de sumir.

“Passamos 5 bons anos juntos, mas acabou” – disse para si mesmo. – “E sei exatamente o que fazer”.

Na sexta, convidou a esposa para um passeio de lancha. Ela não respondeu, ele tomou o silêncio por aceitação. No sábado, conduziu-a de carro até a marina e embarcaram, afastando-se do litoral. A certa altura, quando não havia outro barco nas proximidades, desligou o motor, aproximou-se da esposa e jogou-a pela borda. Depois ficou observando, em silêncio, a boneca de silicone afundar. A água cobriu seu corpo gasto pelo uso e suas feições ainda belas, porém bem menos que as de Kim. Esta deixaria de ser a outra, escondida no porão, para se tornar a sra. Eugênio Marcondes, tomar café da manhã a seu lado e dormir com ele, no quarto de casal. Isso, admitiu para si mesmo, até o surgimento de um novo modelo de sex doll, ainda mais atraente que a chinesa. Ele se conhecia, iria comprar a nova versão de mulher perfeita, escondê-la no porão e trepar loucamente com ela, até se declarar apaixonado. E então Kim seguiria o caminho de tantas outras bonecas que passaram por sua vida, rumo ao fundo do oceano.

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