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AMOR CLANDESTINO

ELE NÃO PERDIA O AMOR, PERDIA O ADULTÉRIO

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Por muitos anos vivemos daquele jeito clandestino. Éramos casados. Ela, com seu marido. Eu, com minha esposa. Havia nisso, hoje percebo, uma espécie de ordem, de segurança. Não era uma situação decente, claro. Mas era o que era. Tínhamos nossos dias, nossos horários, nossas desculpas, nossos pequenos hotéis, nossas viagens possíveis, nossos telefonemas interrompidos, nossas mensagens apagadas. Tínhamos, sobretudo, uma promessa.

Um dia, dizíamos, as uvas seriam colhidas e isso iria acabar.

Era uma frase bonita porque não precisava ser cumprida logo. Servia para nos absolver. Servia para empurrar a culpa para uma data futura, mais limpa, mais corajosa, em que todos sofreriam menos. Ou, pelo menos, em que nós sofreríamos menos por fazer sofrer.

Ela falava disso com uma tristeza que me comovia. Dizia que não suportava mais dormir ao lado de um homem que já não lhe perguntava nada, que parecia ter envelhecido por dentro antes mesmo da doença. Depois, quando a doença veio, tudo ficou mais complicado. Não se abandona facilmente um homem doente. Mesmo quando esse homem já havia nos abandonado antes, de outro modo, estando inteiro, andando pela casa, lendo jornal, em modo avião, reclamando da vida, ignorando a mulher sensacional que tinha ao lado.

Eu também tinha as minhas razões. Sempre temos. A vida, quando quer ser covarde, chama as razões de responsabilidade. Minha esposa e eu já não éramos propriamente um casal havia muito tempo. Éramos sócios, pais, administradores de uma casa, depositários de uma história de vida, que sobrevivia mais por hábito do que por afeto. Havia filhos, parentes, empregados, negócios misturados, aquela engrenagem toda que se cria em torno de um casamento longo e depois passa a parecer mais importante do que o próprio casamento.

Então ficamos assim.

Não digo que sofríamos o tempo inteiro. Seria mentira, e talvez fosse uma mentira vaidosa. Havia sofrimento, sim, mas havia também uma felicidade muito concreta, muito física, quase insolente. Encontrávamo-nos e parecíamos recuperar, por algumas horas, uma vida que não tínhamos tido coragem de assumir. Ela ria de um jeito que em casa não ria mais. Eu falava com ela como já não falava com ninguém. É possível que isso também fosse uma encenação. Mas, se era, representávamos bem.

Durante anos, acreditamos que o impedimento era o mundo. O marido dela. A minha mulher. Os filhos. As convenções. A doença. Os compromissos. O medo. Tudo parecia conspirar contra nós, e essa conspiração nos unia. Cada obstáculo aumentava a importância do nosso amor. Cada renúncia nos fazia parecer mais nobres. Cada noite interrompida, cada despedida no estacionamento, cada beijo dado às pressas, no escuro, a dissimulação em público, tudo se convertia numa prova. Nós éramos, aos nossos próprios olhos, duas vítimas de uma vida mal organizada.

Quando o marido dela morreu, de repente, pensei, com vergonha de escrever isto e mais vergonha ainda de saber que foi verdade, que finalmente a vida havia se corrigido.

Não desejei sua morte. Não sou tão monstruoso, ou pelo menos não quero crer que seja. Mas recebi a notícia com uma emoção confusa, dessas que o homem decente procura esconder de si mesmo. Schadenfreude. Fui ao cemitério, fiquei de longe, depois fui falar com ela. Estava consternado pelos filhos, por tudo o que uma morte representa na sua orgânica fealdade. E, ao mesmo tempo, em algum lugar indevassável da minha alma, senti que uma porta se abria.

Nos primeiros dias, comportei-me como devia. Fui discreto. Não cobrei nada. Não pedi nada. Mandei mensagens breves. Ela respondeu pouco. Era compreensível. Havia velório, missa, inventário, documentos, roupas para separar, remédios vencidos na gaveta, fotografias antigas surgindo de envelopes esquecidos. A morte tem uma burocracia própria, e eu respeitei aquela liturgia.

Depois vieram as semanas. Depois, os meses.

Ela começou a sair.

No início, achei bom. Era justo que voltasse ao mundo. Passara anos presa a uma rotina de doença, consultas, exames, cuidados, pequenas culpas domésticas. Eu mesmo a estimulei. Disse que viajasse, que respirasse, que fosse ver as amigas, que visitasse os filhos. Disse isso porque era o que um homem generoso deveria dizer. E eu ainda queria parecer generoso, sobretudo para mim.

Mas as viagens se tornaram frequentes. Primeiro, uma semana com uma amiga em Tiradentes. Depois, uns dias em Salvador com a filha. Depois, um aniversário em São Paulo. Depois, um fim de semana em Itaipava, de onde me mandou uma foto de uma mesa comprida, cheia de gente que eu não conhecia. Ela estava bonita. Bonita de um modo novo. Não era a beleza nervosa dos nossos encontros, aquela beleza acesa pela urgência, pelo risco, pelo pouco tempo para viver o desejo. Era outra. Mais descansada. Mais livre.

Passei a detestar aquela beleza e me sentir ameaçado por ela. Diminuído. Foi doloroso, e eu pensei que tinha que me acostumar com aquilo.

Antes, ela me dizia que não podia ficar porque precisava voltar para casa. Aquilo me feria, mas também me confirmava. Havia alguém à espera dela, havia uma casa que a reclamava, havia um marido doente no quarto, havia o peso de uma vida que a impedia de ser minha. Agora, não. Agora ela não podia ficar porque tinha combinado um almoço, uma viagem, um jantar, uma aula de pilates, uma ida ao teatro com uma amiga viúva que eu nunca tinha ouvido mencionar.

A palavra “viúva” começou a me irritar. Não por piedade, mas por inveja. Era a liberdade que eu almejava, e me perguntava o que eu faria na mesma situação.

Eu continuava casado. Continuava preso à minha parte da história, preparando, como pude, a minha saída. Falei com um advogado. Calculei prejuízos. Imaginei conversas. Ensaiei frases. Medi o impacto nos filhos, nos negócios, na família da minha mulher, em todos aqueles que, de algum modo, seriam atingidos pela minha decisão tardia. E fazia isso acreditando que ela me esperava na outra ponta da linha.

Mas ela não estava do outro lado. Ela estava em movimento.

Começou a demorar para responder. Depois passou a responder com uma doçura vaga, que me machucava mais que a frieza. A frieza ainda reconhece a importância do outro. A doçura vaga é uma forma educada de expulsão. “Meu amor, estou numa correria, você nem sabe…” “Depois te ligo.” “Essa semana está impossível.” “Não fica assim.” “Você sabe que eu te amo.”

Eu sabia?

Durante anos, o amor dela fora provado pela falta. Escassez de oportunidades. Pelo choro antes de ir embora. Pela raiva de não poder dormir comigo. Pela maneira como me segurava no elevador do hotel, como se aqueles poucos segundos ainda pertencessem a nós. Agora ela era livre e podia tudo. Podia me ver, podia ficar, podia viajar comigo, podia finalmente escolher. E, escolhendo, escolhia cada vez menos.

Foi aí que compreendi, embora ainda não aceitasse: ela não se libertara para mim. Libertara-se também de mim.

Essa ideia me pareceu uma injustiça. Eu havia esperado. Havia suportado. Havia permanecido. Enquanto o marido dela adoecia, enquanto ela se dividia entre a cama dele e a minha, enquanto fazíamos planos impossíveis, eu me convenci de que minha paciência me dava direitos. Não dava. Nenhuma espera dá direito sobre a vida de outra pessoa. Mas eu não estava disposto a essa lucidez. A lucidez, quando chega contra nós, é quase uma ofensa, um tapa na cara.

Passei a cobrar. Primeiro com cuidado, depois com ressentimento. Queria saber com quem ela saía, por que não me chamava, por que preferia as amigas, por que não falávamos mais do nosso futuro. Ela dizia que eu estava pesado. Que precisava de tempo. Que havia passado muitos anos cuidando de tudo e de todos. Que agora queria se reconhecer. Detestei essa frase. “Me reconhecer.” Como se eu fosse parte do esquecimento.

Um dia, durante uma discussão, ela me disse:

— Você queria que eu ficasse livre ou queria que eu ficasse disponível?

Não respondi. Não porque a pergunta fosse injusta. Mas porque era exata demais.

Depois disso, alguma coisa em mim começou a se desorganizar. Tive ciúmes de pessoas sem rosto, de cidades, de fotografias, de amigas antigas, dos filhos que a levavam para jantar, dos fins de tarde em que ela não precisava mentir para ninguém. Cheguei a sentir saudade do marido morto. Não dele, naturalmente, mas da função que ele ocupava. Ele era o obstáculo que nos protegia. Era o carcereiro que, sem saber, guardava o nosso segredo.

Sem ele, ela se espalhou pelo mundo.

E eu, que acreditava desejar a sua liberdade, descobri que amava a sua prisão.

Foi numa noite qualquer, depois de mais uma recusa delicada, que pensei em Álvaro. Viúvo, educado, homem de boa situação, sem filhos pequenos, desses que sabem conduzir uma conversa sem invadir a vida alheia. Ela talvez gostasse dele. Talvez se sentisse segura. Talvez aceitasse jantar. Talvez, com o tempo, se casasse outra vez.

A ideia me pareceu absurda por alguns segundos.

Depois, não mais.

Se ela se casasse de novo, voltaria a ter horários. Voltaria a mentir. Voltaria a me procurar com aquela urgência antiga. Voltaria a dizer que não aguentava mais, que um dia seria diferente, que nós ainda teríamos a nossa vida. E eu poderia amá-la outra vez como antes: pelas beiradas, às escondidas, com culpa, mas na busca de construir um universo paralelo só para nós.

Foi então que percebi, sem espanto, que eu não estava perdendo a mulher da minha vida.

Estava perdendo o adultério.

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Daniel Marchi, editor-executivo de Notibras, é professor, advogado e escritor carioca.
Autor de “A Verdade nos Seres” (poemas) e “Território do Sonho” (contos).

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