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Ideias frescas

Melhor forma de não viver é ter medo já do amanhã

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Psicólogo por correspondência, sempre achei que o sentido da vida é não ter sentido e a explicação para o amor é não ter explicação. Aprendi com a vida que existem coisas que vão além de qualquer justificativa. Por exemplo, o que é viver a vida senão esquecer que ela existe e não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje? Viver a vida é a arte de pintar um quadro com a tinta de cada momento. O resto a gente inventa. Embora saiba que nada sei, o que sei é que a intensidade da vida mata. Por isso, tenho calma para tudo, inclusive para o amor.

Amo sem pressa e sem posicionamentos pré-estabelecidos. Pensar antecipadamente no que vai fazer e fazer o que pensou é para arquitetos, engenheiros, médicos, golpistas, padres conservadores e pastores evangélicos. Como me disse Muhammad Ali em um embargo auricular espiritual, o homem que vê o mundo aos 50 anos do mesmo jeito que via aos 20 anos perdeu 30 anos de sua vida. Parto do pressuposto atávico de que, para alcançar ideias frescas, tenho de estar sempre com a cabeça fria. É o que faço desde menino.

Consciente de que tudo seria fácil não fossem as dificuldades, a política golpista do Brasil me ensinou que o que mata é viver por viver. Pior do que sonhar com a rasteira no adversário, é esquecer que a magia da existência é justamente a percepção de que não há como voltar no tempo para viver novamente aquilo que deixamos para trás. Enfim, a melhor forma de não viver é ter medo do amanhã desde hoje. Portanto, a menos que não tenhamos aprendido com o erro, tudo deve ser entendido como relativo, inclusive a vitória alheia.

Relativo até certo ponto. Meu prazeroso limite é fazer o que as pessoas dizem que não posso fazer. Para o meu Eu escondido, é melhor conquistar a si mesmo do que vencer mil batalhas. Adepto da “seduzência” (meu neologismo para a arte da sedução), vivo em permanente estágio de tensão, conexão, mistério e desejo. Por isso, como disponho de coragem de persegui-los, estou certo de que um dia todos os meus sonhos se realizarão. Afinal, os sonhos não têm pernas, mas eu tenho. Por isso, corro atrás deles.

Sou daqueles que entendem que tudo é bom quando é excessivo. Ou seja, como não podemos pisar duas vezes no mesmo rio, sigo o exemplo do Marquês de Sade, para quem o desejo sexual e a vontade de amar são impulsos naturais que devem ser vividos sem as amarras da moralidade social ou religiosa. De acordo com Santo Agostinho, a medida do amor é amar sem medida. Entretanto, me mantenho em plena ereção afetiva e, conforme pregava o poeta português Bocage, também acho que “Amores vêm e vão, mas o verdadeiro amor nunca sai do coração”.

Tudo isso para afirmar ao distinto público que a lagarta não precisa de um milagre para virar borboleta. Ela só precisa respeitar o processo. É o que faço desde o limiar da terceira idade. Não frequento igrejas evangélicas, pois temo a mão dos pastores em meu ombro. Também não visito as casas de alimentação rápida, do tipo fast food, porque morro de medo de me engasgar com um fiapo de manga Palmer. Hoje eu deixo a vida me levar, não corro risco, mas morrerei achando que as coisas que sabemos melhor são aquelas que não nos ensinaram.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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