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Louca obsessão de infância

A grande nicada

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

João e José eram inseparáveis amigos de infância.

Onde um estava, lá estava o outro.

Isso até aquele fatal jogo de bolinhas de gude, passatempo preferido dos dois amigos em que ambos eram exímios.

—Nicou, gritou João.

—Não nicou, refutou José.

—Como não? Deu até para ouvir o barulho da nicada!

—Que barulho? É só olhar as bolinhas, elas não estão se tocando!

—Estão sim, você é que está cego!

—Não nicou!

—Nicou!

Antes que os dois jogadores partissem para as vias de fato, a turma do “deixa-disso” entrou em ação.

Foi formada uma comissão de três juízes entre os assistentes a fim de dirimir a contenda.

Júlio votou pela nicada, Joel pela não nicada e César ficou em dúvida.

O jogo acabou entre impropérios, ofensas e gritos ininteligíveis.

Os até então melhores amigos voltaram para casa brigados e, dali para a frente, nunca mais se falaram.

Quando estavam no grupinho da escola, um somente se referia ao outro através de indiretas-diretas nada lisonjeiras.

—Esse mentiroso aí não merece confiança!

—Esse farsante aí tem que ficar fora do time!

Cresceram e mantiveram viva a inimizade-raiz, alimentando uma rivalidade que só aumentava com o tempo.

João casou com uma amiga comum da dupla: Nicole.

José, imediatamente, pediu outra amiga comum em casamento: Nina.

Os dois prosperaram, um sempre de olho no que o outro fazia.

João entrou para o ramo das empreiteiras e construiu um prédio residencial ao qual deu o nome de “NICO”.

José também decidiu entrar para o mesmo ramo e construiu outro prédio em frente ao condomínio do rival, batizando o empreendimento de “NONICO”.

João dedicou-se à arte da escultura. Esculpiu uma obra com duas gigantescas bolas de gude se tocando a qual denominou “A grande nicada”.

José tornou-se crítico de arte e escreveu um artigo sobre a obra do rival com o título: “A grande farsa que não nicou”.

Após outras disputas públicas inusitadas, ocorrerem de forma cada vez mais ruidosa, as duas esposas resolveram conversar entre si para tentar acabar com aquela obsessão dos maridos.

—Isso já está indo longe demais, Nicole! Precisamos colocar bom senso na cabeça desses dois, afinal, são amigos de infância brigados por uma bobagem.

—Concordo, Nina! Essa rivalidade sem sentido está consumindo o cérebro deles. O João nem pensa mais “naquilo”, só se preocupa com essa disputa irracional.

Assim, ambas conversaram com os maridos sobre a questão e, após muita insistência, conseguiram marcar um jantar entre os casais na tentativa de reaproximar os brigões.

—Está bem, Nicole, mas nicou, asseverou João.

—Concordo, Nina, mas não nicou, garantiu José.

A fim de evitar discussões inúteis sobre o tema e prevenir uma briga mais do que certa, as esposas fizeram os maridos jurarem que não mencionariam nada que envolvesse bolinhas de gude naquela noite.

Surpreendentemente até para as suas promotoras, o jantar transcorreu em um clima cordial e agradável. Os irredutíveis rivais não apenas cumpriram a promessa feita às esposas, como também ficaram felizes em retomar a antiga camaradagem.

—Eu sempre admirei a coragem e a determinação do João, elogiou José.

—Eu sempre disse que o José é um dos raros homens que atualmente ainda fazem a barba com navalha, retribuiu João.

Com o passar do tempo, os casais passaram a sair juntos e frequentar a casa um do outro. A questão da mortal rivalidade das bolinhas de gude parecia sepultada para sempre.

Todavia, como o destino muitas vezes é padrasto e não pai, um fato inesperado voltou a reabrir a terrível disputa nascida na infância: Nicole e José desenvolveram uma irresistível atração mútua que terminou na cama.

Um dia, os amantes adúlteros foram surpreendidos por João quando estavam nos lençóis.

Sem defesa frente à constrangedora situação, José falou para o indignado marido traído:

—Tudo bem, tudo bem, dessa vez nicou!

……………………………………

O escritor J. Emiliano Cruz, o rei do folhetim, é autor do livro: A felicidade e os risíseis amores de todos nós.

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