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Campanha desidratada

Afinal, o que Flávio Bolsonaro foi fazer em Washington?

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Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

A pergunta começou a circular em Brasília antes mesmo de o avião pousar. E convenhamos: o timing da viagem não ajudou em absolutamente nada. Enquanto a pré-campanha de Flávio Bolsonaro atravessava talvez sua semana mais desconfortável desde que o filho 01 passou a ser tratado como herdeiro natural do bolsonarismo, o senador resolveu embarcar para Washington em pleno auge da fumaça produzida pelos áudios envolvendo Daniel Vorcaro, pelas explicações desencontradas e pelo constrangimento político que se instalou ao redor do caso.

O ambiente já vinha ficando pesado havia dias. As pesquisas começaram a captar esfriamento eleitoral, aliados passaram a medir palavras com muito mais cuidado, setores da direita começaram discretamente a discutir alternativas e Sérgio Moro apareceu numa entrevista coletiva ao lado de Flávio parecendo um ex-padre tentando explicar por que resolveu abrir uma casa noturna em Las Vegas.

Foi nesse cenário que Washington surgiu. A viagem produziu em Brasília uma sensação parecida com aqueles intervalos técnicos para hidratação que já fazem parte do futebol moderno. Eles não são pedidos pela comissão técnica. Já estão previstos no roteiro da partida. Mas, dependendo do momento do jogo, acabam servindo muito mais para reorganizar um time pressionado do que propriamente para matar a sede dos jogadores. E o bolsonarismo parecia precisando exatamente disso.

A defesa já começava a bater cabeça, o banco de reservas demonstrava inquietação, parte da torcida conservadora passou a olhar o placar com desconfiança e alguns dirigentes começaram silenciosamente a cogitar se não era prudente deixar outros nomes aquecendo na lateral do campo. Caiado e Zema, até pouco tempo tratados quase como reservas comportados do sistema, passaram subitamente a ser observados com atenção muito menos protocolar. O Centrão, pego meio de calças na mão pela demora de Flávio em enfrentar o desgaste de maneira mais objetiva, começou a olhar ao redor tentando entender se não apareceu uma inesperada janela de oportunidade fora da órbita automática do sobrenome Bolsonaro.

E a política brasileira adora farejar momentos assim. Sobretudo quando a sensação de inevitabilidade começa a perder temperatura.

Talvez por isso Washington tenha surgido não apenas como viagem internacional, mas quase como pausa estratégica para baixar fumaça, reorganizar discurso e ganhar tempo enquanto alguém tentava “regular” o VAR político da partida, empurrando alguns centímetros a linha de impedimento que Flávio aparentemente ultrapassou nos últimos dias.

O problema é que crise política não respeita fuso horário.

Áudio ruim não perde validade no embarque internacional. Desgaste eleitoral não fica retido na imigração. E Trump, apesar da convicção quase messiânica que parte do bolsonarismo deposita nele, aparentemente ainda não desenvolveu tecnologia capaz de apagar constrangimento político produzido em português.

A companhia do irmão Zero 2 também adiciona uma camada curiosa à viagem. Eduardo Bolsonaro transformou seu autoexílio político nos Estados Unidos numa espécie de filial emocional permanente do bolsonarismo, como se bastasse atravessar a fronteira americana para que toda turbulência institucional brasileira adquirisse automaticamente aparência de perseguição internacional sofisticada.

Washington virou quase um cenário terapêutico para setores da direita brasileira. Uma mistura de bunker ideológico, parque temático do trumpismo e sala VIP emocional para políticos tentando respirar longe da fumaça doméstica.

O problema é que algumas viagens ajudam políticos a encontrar aliados. Outras apenas deixam mais evidente o tamanho da pressão que eles tentavam deixar para trás.

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