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Rio/Brasília

Nem o Botafogo explica o Banco do Brasil

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Se existe o ditado que há coisas que só acontecem ao Botafogo, afirmo que outras tantas, por mais esquisitas que sejam, costumam frequentar as dependências do Banco do Brasil. E aqui vai uma dessas incongruências com a sanidade, testemunhada por Gilmarildo, amigo de longa data do ex-funcionário da casa Sérgio.

Lá pelos idos de 1992, talvez 1993 ou 1994, não importa, o Sérgio estava lotado na saudosa agência Figueiredo Magalhães, em Copacabana, o mais afamado, para o bem e para o mal, bairro carioca. Tempos divertidos, costuma dizer o sujeito, que ainda guarda na lembrança momentos divertidos e, não raro, constrangedores. No entanto, deixemos tais eventos de lado, pois a tinta é curta e periga não ser suficiente para terminar este causo.

Cecília, nome de poetisa, era a gerente de uma das inúmeras equipes da agência. E, por azar, sorte, calvário ou destino, eis que o Sérgio era um dos seus subordinados. A mulher, acredite, era difícil no trato, do tipo que buscava a discórdia só para ter a chance de apezinhar o alvo da vez. Uma peste, como os colegas a chamavam à boca pequena, pois ai da carrasca se os ouvisse. Era bronca na hora, com direito a meia hora de sermão.

— Sérgio, tu só pode estar de brincadeira! Já é a terceira vez que você me aparece aqui com diferença no caixa.

— Terceira vez no ano, né, Cecília!?

— E tu acha pouco?

— Foi mal, chefe! Ah, antes que me esqueça, feliz Natal pra você também.

Cecília, que nascera desprovida de uns 15 centímetros para atingir um metro e meio, só ia trabalhar de salto alto, sem contar a gastança de laquê para deixar os cabelos armados. Entretanto, por conta do incômodo de se equilibrar nas alturas, ela preferia retirar o calçado antes do final do expediente. E foi justamente essa a oportunidade que o Sérgio e o Gilmarildo estavam esperando, mesmo que, até aquele instante, não soubessem.

Soares, o maloteiro, costumava passar na agência já no final do expediente. Ele trazia e levava documentos nos malotes, que eram lacrados e rodavam o país inteiro. E não se sabe exatamente por que, mas Cecília era toda sorriso com o tipo. E, quando o fechamento do expediente estava tranquilo, fazia questão de convidá-lo para um café na cantina, que ficava no corredor à esquerda.

— O que você está fazendo, Sérgio?

Não é que o Sérgio, aproveitando-se da breve ausência da gerente, tinha pego um dos pés do sapato da Cecília sob a mesa e, pasmem, o jogou dentro do malote? Acredite, pois foi o que aconteceu.

— Fica na tua, Gilmarildo. Vê se não vai dar com a língua nos dentes! Olha lá, hein!?

Gilmarildo, do alto do seu físico de grilo, não era besta de criar imbróglio com o Sérgio, famoso por bíceps talhados em academia. Melhor era ficar calado, e ficou mudo que nem rato quando tem gato no sótão.

Sérgio, assim que a Cecília e o Soares retornaram, se despediu e, como era sexta-feira, decidiu caminhar pela orla até seu quarto e sala, que ficava na altura do Posto 2. Inebriado pela maresia e principalmente por conta da arte que acabara de aprontar, o bancário se sentiu vingado e nem se preocupou com os olhares esquisitos quando gargalhou.

Na segunda-feira, o Gilmarildo foi colocar o colega a par do desfecho do imbróglio, que certamente se deu por causa do desaparecimento de um dos pés do sapato da gerente.

— Tu acredita que ela nem desconfiou?

— Do que você está falando, cara?

— Do sapato da Cecília.

— Sapato? Que sapato, Gilmarildo?

— Ué! Do sapato que tu colocou no malote do Soares.

— Eu? Tu bebeu?

Enquanto Sérgio fez questão de não conter o cinismo, Gilmarildo, sem ânimo ou coragem para prosseguir aquela conversa, fingiu uma dor de barriga e foi cuidar da vida. Que aquilo era assunto morto e enterrado.

Alguns anos se passaram e, já em meados de 2012, Gilmarildo foi trabalhar em uma agência em Brasília. Sentiu falta do Rio, mas as vantagens do novo cargo eram recompensadoras. E foi assim, infeliz e de bolsos recheados, que ele presenciou algo inusitado.

Já no início de 2013, durante um curso para o alto escalão do Banco do Brasil, Gilmarildo reencontrou sua antiga gerente, a Cecília, cuja carreira meteórica lhe possibilitava tocar as nuvens, caso desejasse. Para relembrar os velhos tempos, o homem convidou a colega para um passeio no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que fica em uma área pouco afastada. E lá foram os dois sem nem desconfiarem que aquele momento marcaria para sempre suas vidas.

Estava tendo uma exposição sobre o diretor de cinema Quentin Tarantino no CCBB, e a Cecilia, que tinha fama de adoçar o café com sangue, queria porque queria assisti-la. Gilmarildo, por sua vez, como bom anfitrião, desejou realizar o desejo da mulher.

Cecília se esbaldou com os filmes do aclamado diretor, o que fez com que o anfitrião de última hora se sentisse, de certa forma, satisfeito. E, quando a dupla já se preparava para ir embora, eis que a Cecília, curiosa que era, observou que havia um pequeno museu no local e quis entrar.

Entre tantas relíquias, algo chamou a sua atenção: uma enorme estante com vários objetos. E, acredite ou não, lá estava o sapato perdido da Cecília. Ao lado, uma placa de metal com a seguinte inscrição: “Há coisas que só acontecem no Banco do Brasil”.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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