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A Maria Emília Loureiro

Ao cair da noite

Publicado

Autor/Imagem:
Auta de Souza - Francisco Filipino

Não sei que paz imensa
Envolve a Natureza,
N’ess’hora de tristeza,
De dor e de pesar.
Minh’alma, rindo, pensa
Que a sombra é um grande véu
Que a Virgem traz do Céu
Num raio de luar.

Eu junto as mãos, serena,
A murmurar contrita,
A saudação bendita
Do Anjo do Senhor;
Enquanto a lua plena
No azul, formosa e casta,
Um longo manto arrasta
De lúrido esplendor.

Minhas saudades todas
Se vão mudando em astros…
A mágoa vai de rastros
Morrer na escuridão…
As amarguras doidas
Fogem como um lamento
Longe do Pensamento,
Longe do Coração.

E a noite desce, desce
Como um sorriso doce,
Que em sonhos desfolhou-se
Na voz cheia de amor,
Da mãe que ensina a Prece
Ao filho pequenino,
De olhar meigo e divino
E lábio aberto em flor.

Ah! como a Noite encanta!
Parece um Santuário,
Com o lindo lampadário
De estrelas que ela tem!
Recorda-me a luz santa,
Imaculada e pura,
Da grande noite escura
Do olhar de minha mãe!

Ó noite embalsamada
De castas ambrósias…
No mar das harmonias
Meu ser deixa boiar.
Afasta, ó noite amada,
A dúvida e o receio,
Embala-me no seio
E deixa-me sonhar!

………………….

* Auta de Souza, in “Horto”, 1900.

Auta de Souza (1876–1901) foi uma poetisa brasileira de destaque na segunda geração romântica. Conhecida por sua espiritualidade e versos sentimentais, sua obra reflete forte religiosidade e amor à natureza. Ela faleceu precocemente aos 24 anos, deixando um legado inesquecível para a literatura nacional.

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