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Temporada nordestina

No jornalismo, nem tudo acontece do jeito que a gente quer

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto Editoria de Imagem/IA

Como repórter esportivo de jornais cariocas, tive o privilégio de viajar o Brasil cobrindo principalmente futebol e ouvindo histórias fantásticas. A convite do amigo Sebastião Benjamim de Oliveira, parti para cumprir uma temporada nordestina. Em um fim de semana inesquecível, cheguei ao Piauí para uma partida entre o Flamengo local e o River no Piscinão, em Planaltina, denominado à época Estádio Governador Mão Santa. Por uma dessas obras do acaso, perdemos a condução e tivemos de acompanhar a contenda de Teresina. Achei interessante ouvir o jogo na frequência da Rádio Clube da capital, que estava sendo inaugurada naquele dia.

Debutando na emissora, Salomão De Las Viegas foi apresentado ao público piauiense como locutor oficial e, de imediato, informado ao vivo pela técnica que precisava criar um bordão para marcar as transmissões esportivas da rádio. Conhecido em todo Nordeste pela rapidez de pensamento e criatividade semântica, o conceituadíssimo e empolgado narrador precisou de apenas alguns segundos para criar seu bordão: “Atenção ouvintes da pioneira Rádio Clube, quem nada é peixe e quem enche “cu” de judas é mulambo”.

A avaliação é que ele não lembrou que vivíamos em plena ditadura. Lotadas, as arquibancadas do Piscinão por pouco não foram abaixo. Quase ninguém viu a entrada das duas equipes em campo. Atordoado com a repercussão, Salomão foi substituído na hora, desapareceu montado num jegue e, claro, a emissora foi temporariamente tirada do ar pelo extinto Dentel e o estádio, de Mão Santa, virou Comendador Pedro Alelaf. Não tive tempo de dizer ao companheiro que, no jornalismo, nem tudo acontece do jeito que a gente quer.

Encerrada a partida, estiquei até a bucólica Luís Correia, uma das quatro cidades do belíssimo litoral do Estado. Cheguei no mesmo dia em que o então governador Alberto Silva inaugurava o primeiro hotel estrelado do município. Estava lá a TV Clube, repetidora da Globo, com parte da equipe que eu havia conhecido na véspera em Teresina. Perguntei, mas não tive notícias de Sebastião Oliveira. Inauguração em andamento, os anfitriões começaram a servir um auspicioso churrasco de bode capado. Almoçando, o governador foi convidado para os cortamentos da faixa.

Levantou-se, segurando na mão direita uma faca que utilizava para manobrar de cima para baixo e de baixo para cima enquanto discursava solenemente para uma endoidecida plateia de albertistas. Ainda no sistema analógico, as emissoras usavam filmes, que, após o manuseio pelos cinegrafistas, eram revelados em suas sedes. Encerrada a solenidade em Luís Correia, o repórter pediu ao auxiliar de câmera Mereré (nunca procurei saber o nome correto) que “voasse” para Teresina a tempo de revelar o material para o jornal local das 19h.

Antes de lacrar a caixa com o filme, o repórter teve o cuidado de enviar um recado para o editor: “Cortar o governador com a faca”, ou seja, editar a matéria sem a imagem de Alberto Silva com o objeto cortante. Apenas isso. Mereré montou na máquina da empresa – um fusquinha 1972 – e partiu a 100 km por hora para a capital. Eram cerca de 350 km que precisavam ser vencidos pela BR-343. O auxiliar corria tanto que não percebeu numa das curvas da estrada uma blitz da Polícia Rodoviária. Obedecendo à determinação do guarda, Mereré encostou o fusquinha no acostamento, mostrou o crachá da TV Clube e informou a razão de sua pressa.

O policial estranhou o formato da caixa de filme no banco do carona e quis saber do que se tratava. Mereré explicou, mas foi obrigado a abrir o estojo. Ao ler a frase “Cortar o governador com a faca”, o samango não aceitou mais argumentos. Deu voz de prisão ao técnico, confiscou o material e só aceitou esclarecimentos do próprio Alberto Silva. Reencontrei Mereré em Brasília, onde passou boa e longa temporada como auxiliar do compadre Gerson Gonçalves.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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