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Ponto a ponto

A colcha de retalhos

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e foto

“…Aquela colcha de retalhos que tu me deste…”
(Cascatinha e Inhana, dupla sertaneja brasileira)

As canções são potentes e capazes de nos trazer o tempo e os sentimentos. Transversais de memórias que nos envolvem com sons, poesia, cheiros e sabores.
Metalinguagem, multidimensões, não-lugares., hiperespaços.

Música, palavras-tempo, imagens-memórias, pessoas, objetos, coisas.

Ontem, recebi uma postagem de uma querida amiga, Ana/China, com fotos de barcos e com a frase da icônica canção que reproduzi na abertura da crônica.

Os dois detalhes extraordinários: barcos fotografados em diferentes regiões da Ásia e todas as velas criadas por mãos artesãs na técnica milenar da Colcha de retalhos.

Você pode estar pensando: “E daí, Gil? O que isso tem de mágico, poético?”.

“Serviu para o nosso abrigo, em nossa pobreza /
Aquela colcha de retalhos está bem guardada”

Os versos falam por mim.

A colcha aquece, protege, afaga. Se faz parceira ao longo de toda vida.

E então é guardada e repassada como fortuna e testamento às novas gerações.

“Agora na vida rica que estás vivendo / Terás como agasalho colcha de cetim /
Mas quando chegar o frio no teu corpo enfermo / Tu hás de lembrar da colcha
e também de mim”

A colcha-parceira sempre fiel e presente.

Nos tempos da fartura e “das vacas magras”. Se faz um ser, pessoa da família, companheira de travessias, desafios e esperanças.

Amores vem, amores vão.

Sonhos sonhados e perdidos entre as circunstâncias do viver pelos desvãos.

E a colcha permanecerá sempre lá. Talvez esquecida num baú no sótão solitário das casas de nossos filhos e netos e netas.

Mas concretamente lá… à espera!

E seguimos costurando nossas vidas como as mágicas colchas de retalho.

Não, não desista nunca. São pedaços de existências que juntas formam o colorido mosaico de nós viventes.

Escultura poética gerada ponto a ponto.

Frankenstein às avessas.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador; guarda em destaque na cama as colchas de retalho que herdou do avó Rita e da mãe Nair. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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