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Quanta imaginação!

A morte do peru

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Felipe era jornalista aposentado, poeta e contista nas horas vagas. Horas que se multiplicavam, fazer frilas (cada vez mais escassos) e escrever poemas e contos era jogo rápido. Sobrava muito tempo para ele se dedicar a outra atividade prazerosa: jogos de sedução, nas redes sociais ou presencialmente.

Gostava de mulheres de todas as idades, fazia-lhes a corte, enviava-lhes flores, escrevia-lhes poemas e contos… Mostrava-se um perfeito cavalheiro, um amante à moda antiga – e nem podia ser diferente, estava com 78 anos!

Em tais circunstâncias, Felipe tomava todo o cuidado para não parecer ridículo, um velho gaiteiro, sem-noção. Por isso, doeram tanto as palavras de uma mulher de 42 anos que ele cortejava via whatsapp:

“Me admira você ser tão animado.”

Ela brincava, não pretendia feri-lo, mas o fez. De imediato, ele traduziu o post como “Me admira o senhor ser tão animadinho, na sua idade…”.

“Ela não se espanta por eu estar vivo”, pensou. Admira-se por eu ainda gostar da coisa, por eu ainda funcionar”. Gravou um áudio para a dama:

– Você já ouviu falar no balé A morte do cisne? Nele, o bailarino-cisne não vai até o meio do palco e estrebucha; antes de morrer, a ave dá seu último voo, o intérprete dança maravilhosamente, encanta a plateia e, no final, o cisne morre – retomou o fôlego e continuou. – Pois bem, querida, a morte do peru é quase igual. Antes de bater as botinhas gruguleja por aí, faz a festa, se enfia em todo lugar enfiável, e depois morre. É o destino de todo peru. Mas, antes, ele se diverte um bocado.

Só que não mandou a gravação. Ouviu-a duas vezes e falou para si mesmo:

– Isso dá samba. Dá um conto. Não, dá um balé, A morte do peru!

Alguns elementos vieram-lhe à mente de imediato. Haveria muitas mulheres, com trajes sensuais inspirados nos da ópera Carmen, do francês Georges Bizet. A fantasia do bailarino seria um peru estilizado, mas sem exageros, algo comparável à do protagonista de A morte do cisne. A dança, era inevitável, seria baseada na do balé de 1905, que, a partir de então, havia inspirado intérpretes de uma produção mais antiga, O lago dos cisnes, de Tchaikovsky; mas seria menos extensa e com elementos contemporâneos – uma citação. Haveria muitas simulações de sexo: como observara no áudio, o peru se enfiaria em todo lugar enfiável. Infelizmente, seria um peru-ave, o mundo das artes e, em especial, o público não estavam preparados para um peru de outra espécie. Mas ele sabia como tornar o conteúdo evidente.

Rascunhou um texto e foi procurar o diretor de uma companhia de dança contemporânea, amigo de muitos anos. Leu o que anotara, aprofundou na hora alguns pontos e perguntou:

– E então, o que você achou?

Sem acreditar no que ouvira, o amigo emudeceu. Tomando o silêncio como encantamento, Felipe prosseguiu:

– Genial, não é? E tem uma coisa que não escrevi, mas que é fundamental. Antes da morte do peru, o bailarino chega na beirinha do palco, sacode os braços, gruguleja, quer dizer, faz som de peru, e escarra ou cospe na direção do público. Para simbolizar ejaculação, você entende. Somam-se desse modo as representações da ave e do órgão sexual. Pois é da morte deste último que se trata!

Pôs para fora e começou a se tocar, enquanto dizia:

– Só que o meu está bem vivo, olha que beleza! – e retomou o discurso delirante.

– Minha ideia original era que o bailarino fizesse o que estou fazendo, diante da plateia. Mas achei demasiado, por isso pensei na escarrada ou na cuspida. Qual das duas você acha mais conveniente?

– Um momento, preciso telefonar – fez a ligação e falou baixinho.

Quatro minutos depois, entraram dois homens fortes, em uniformes de enfermeiro. Imobilizaram Felipe, que ainda se tocava furiosamente, e aplicaram-lhe uma injeção de derrubar cavalo. Ele apagou na hora. Foi internado no mesmo dia.

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