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Realidade

A sala de aula que não cabe mais

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Entrei na sala de aula certa manhã de março, em uma escola pública de São Paulo, e o ar já estava pesado antes mesmo do sinal tocar. Não era o calor de fim de verão. Era outra coisa: um cansaço antigo, acumulado, que mora no peito dos professores como um aluno que não quer sair da carteira.

A professora — vamos chamá-la de dona Maria, porque o nome verdadeiro não importa, são tantas as Marias — estava de pé, tentando explicar frações. Mas o celular de um aluno tocou. Depois outro riu alto. Uma menina no fundo chorava baixinho porque alguém tinha feito piada com o cabelo dela. Em vinte minutos de aula, dona Maria já tinha perdido quase cinco só pedindo silêncio. Segundo as pesquisas mais recentes, ela não está sozinha: os professores brasileiros perdem, em média, 21% do tempo de aula só para manter a ordem. Um quarto da aula vira administração de bagunça.

E não é só barulho. É o olhar vazio de quem passou a noite no celular, é o aluno que chega sem ter tomado café, é o outro que traz no corpo as marcas de uma casa que não é lar. São as turmas cada vez maiores, com crianças e adolescentes neurodivergentes que merecem apoio especializado, mas muitas vezes recebem apenas boa vontade e improvisação. São os pais ausentes ou sobrecarregados, que cobram resultados como se a escola fosse fábrica de gênios, mas esquecem de cobrar respeito.

Dona Maria carrega mais do que giz e caneta. Carrega pilhas de correções que faz em casa, depois do jantar. Carrega a pressão por nota, por presença, por desempenho no IDEB. Carrega o medo sutil de uma palavra atravessada, de uma ameaça velada, de uma agressão que, em muitas escolas brasileiras, já deixou de ser exceção. Violência verbal, bullying, intimidação — nove em cada dez professores relatam sentir o peso disso. A saúde mental deles vira outra matéria que ninguém ensina: ansiedade, esgotamento, afastamentos que se multiplicam.

Enquanto isso, o salário mal acompanha a inflação. A formação continuada é rara. O material didático chega atrasado ou incompleto. E ainda sobra para o professor ser psicólogo, assistente social, mediador de conflitos e, às vezes, segurança da própria sala.

Eu fico olhando para dona Maria e penso: quantas vezes ela já pensou em desistir no fim do dia? Quantas vezes chegou em casa, tirou o sapato e chorou porque o aluno que mais precisa dela é justamente o que mais atrapalha? E, mesmo assim, no dia seguinte ela volta. Porque no meio do caos ainda existe aquele momento raro — quando o olhar de um menino acende ao entender a conta, quando uma menina tímida levanta a mão pela primeira vez, quando a sala inteira, por alguns minutos, respira junto.

A sala de aula brasileira é um campo de batalha silencioso. De um lado, a realidade dura: indisciplina, desigualdade, falta de estrutura. Do outro, a teimosia bonita de quem insiste em plantar sementes mesmo sabendo que a terra está seca. O professor não é herói de filme. É gente como a gente, com conta para pagar e sonho para realizar. Só que decidiu carregar o futuro dos outros nas costas.

Enquanto o país discute política, economia e Copa do Mundo, dona Maria continua de pé, apagando o quadro e recomeçando a explicação das frações. Porque alguém tem que fazer. E ela faz. Com menos do que merece e mais amor do que a maioria de nós conseguiria reunir.

Um dia, quem sabe, a sociedade vai olhar para ela não como custo, mas como investimento. Enquanto isso não acontece, a crônica da educação brasileira segue sendo escrita todos os dias — com giz, paciência e uma coragem que não cabe em nenhuma prova.

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