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Curral eleitoral

Quem troca o voto por dentadura fica sem carne e mastiga saliva

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto Editoria de Imagens/IA

Antiga, mas sempre usada em épocas eleitorais, a afirmação de que o voto é inegociável deixou de ser apenas uma sugestão. Hoje ela é uma constatação de sua nocividade. Vender o voto não compra a dignidade de ninguém. Pelo contrário. O negócio representa, de forma clara e cruel, a culpa do vendedor pelo fracasso da nação. Quem se vende durante a eleição não pode reclamar de nada. Por exemplo, de que adianta trocar o voto por uma dentadura e depois lamentar pela falta do que mastigar com ela?

Qualquer eleitor sensato, sério e consciente sabe que não pode haver mudança em uma sociedade quando a voz da necessidade é silenciada pelo dinheiro. Entre as recomendações eleitorais, um dos principais alertas é tão atual como a loucura do republicano Donald Trump: “Não é a política que faz o candidato virar ladrão. É o seu voto que faz o ladrão virar político”. Portanto, um povo que vende o voto não transforma nenhum político em credor, mas o autoriza a permanecer corrupto.

A política é a voz do povo. Saber usá-la é um ato de transformação. Em resumo, o poder só emana do cidadão quando ele entende que consciência política é uma questão futurista e de sobrevivência. Povo consciente é aquele que não se deixa enganar por fakes news, marketing pessoal, tampouco por chororôs apelativos e objetivamente desconexos. Os que não conseguem lembrar das mazelas de um passado bem recente são os que estão condenados a repeti-lo. Desses eu quero distância.

Tão óbvia como a soma de dois mais dois ou a conversão de todas as mulheres do BBB em celebridades, em “atrizes” da Globo, garotas propaganda ou apresentadoras mequetrefes de outras emissoras, a eleição presidencial de 2026 chega a dar medo em pelo menos 99,9% dos quase 160 milhões de eleitores brasileiros. Metade mais um do eleitorado tem certeza de que a opção de voto deve ser a mesma de 2022. A outra metade menos um sabe em quem não votou, mas ainda não fechou questão em torno de um candidato.

O restante não decidirá a eleição, mas certamente contribuirá numericamente para a escolha do futuro presidente da República. O medo das duas metades é simples. Como sobram narrativas e acusações e faltam projetos de governo, a disputa está restrita ao melhor contra o pior. O primeiro não é Deus, mas já bebeu nas águas lúcidas e conselheiras do poder. O outro está longe de ser um azarão, mas pertence a uma família que não dá ponto sem nó. Resta à população a escolha entre a perenidade democrática e a dúvida.

Vencendo um, continua tudo mais ou menos como dantes. Ou não? Talvez não tenhamos mudanças radicais, mas certamente estarão mantidos todos os princípios de liberdade sugeridos pelo sistema democrático. Vencendo o adversário ideológico, provavelmente voltaremos à fase do salve-se quem puder. Ou seja, se algum dos 213 milhões de brasileiros espera melhorias mais lá do que cá, é melhor se preparar para a repetição de frustrações em série.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978 

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