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Bar do Bosco

Hilário e a minha capivara

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Tenho apreço por gente, especialmente aquelas pessoas já passadas dos 80, cuja falta de freios me dá a certeza de que o mundo, por mais estranho que possa parecer, é divertido. Os miúdos também carregam lá certo charme, mas nada como a impetuosidade de uma língua ferina carregada de experiências as mais inusitadas possíveis.

Seu Hilário, como o próprio nome aponta, é extremamente divertido. No entanto, não pense você que seja por opção, mas pela completa falta de noção que costuma se materializar diante dos absurdos ditos. E ai daquele que se atreva a contestar o coroa, é lapada certeira nos cornos.

Dia desses, aqui perto de casa, enquanto eu dividia uma cerveja com o Salomão e o Chico no Bar do Bosco, eis que o seu Hilário surgiu. Não que isso tenha caráter de novidade, pois ele é bom de copo, mas não costuma perder a linha. O máximo que acontece é mostrar as qualidades de passista de escola de samba, que, na verdade, não possui nem sequer cacoete.

— Calixto, tu não sai dessa bodega. Olha que vou passar a sua capivara pra dona Clementina.

Você deve ter percebido que o seu Hilário se dirigiu à minha pessoa. Ele parece gostar de mim e, não duvido, ainda mais da minha mãe. Chego a desconfiar que o velho já é meu padrasto, mas não tenho coragem de investigar. Vá que eu descubra da pior forma. Será? Prefiro acreditar na discrição da dona Clementina.

— Sabe, Calixto, cerveja é uma droga! É como se o cara não tivesse coragem pra encarar a vida.

— Como é que é?

— Isso! Homem de verdade vai direto ao ponto. Por isso que prefiro uma branquinha.

— Seu Hilário, mas tem gente que não vai concordar.

— E daí?

— Ué, as pessoas têm opiniões diferentes. Ou o senhor vai querer proibir isso?

— Olha aqui, meu filho, não proíbo nada, mas que estão todos errados, ah, isso estão.

Não sei se eu ria ou se ficava preocupado. Como é que é? Meu filho? Será?

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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