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Nas ruas

Vida de cão

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Francisco Filipino

Tenho cá meus três, quatro anos. Na verdade, não sei direito, pois a vida nas ruas não me permite contar o tempo. Preciso garantir o prato de todos os dias, mesmo que seja algum resto que os ditos humanos, tão generosos comigo, deixam nas latas de lixo. Quer dizer, a maioria parece me ignorar, enquanto outros fazem questão de demonstrar todo o asco que sentem quando passam por mim.

Quem eu sou? Não tenho nome, porém, se você me chamar, olho desconfiado, mas, dependendo da sua intenção, dou alguns passos em sua direção e me deixo acariciar por suas mãos. Em outros casos, saio que nem um cachorro desembestado pelas ruas da cidade.

Um cachorro! Justamente o que sou. Vira-lata de quinta geração, como mamãe sempre me disse, embora ela sempre afirmasse que tínhamos linhagem de nobres, que obviamente se perdeu ao longo de cruzamentos indevidos. De lá para cá, a coisa desembestou, que é difícil imaginar que corre em minhas veias sangue de Dogue de Bordeaux.

O meu humano preferido é o Ivanildo, parece que dorme na rua há muito tempo. Apesar de não ter muita coisa para dar, ele me oferece o que me conforta mais o coração: amor. Isso sem falar nas inigualáveis coxinhas que sempre ganhamos quando fazemos ponto em frente à padaria do Rogério. Não sei se por causa dos meus doces olhos castanhos ou, então, por conta das ataduras que cobrem metade da perna do meu amigo.

Certa feita, uma dona armou o maior barraco com o Ivanildo. Falou um monte naquela voz com que humanos estão acostumados: gritaria. O meu companheiro nem deu ouvidos e me chamou para um canto. Mal sabia eu que aquela mulher estava falando de mim.

Alguns dias se seguiram, e a tal senhora retornou, agora acompanhada de uma trupe, e me levou à força para um local cheio de outros cachorros, gatos, alguns cavalos e até um jegue. Fui obrigado a tomar quatro banhos por mês. Fiquei cheirando a rosas. Um horror! Logo eu, que só tomava banho quando chovia. Sem falar naquele rango sem sabor.

Não sei se foi saudade do Ivanildo ou das coxinhas, mas fugi depois de quase um ano. Corri de volta para a rua, que é o meu lugar. Não encontrei o Ivanildo. Talvez aquelas pessoas o tenham levado para uma prisão que nem a que eu fiquei. Seja como for, ainda aguardo pela volta do meu parceiro, que deve estar sentindo muita saudade das coxinhas e do meu nariz gelado.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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