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No sofá da sala

Claro, mãe

Publicado

Autor/Imagem:
Júlio Cesar Rodrigues - Foto Francisco Filipino

Estamos no sofá da sala. É meu fim de semana de cuidador. Ela estica o braço roxo das picadas do hospital, de onde saiu há poucos dias:

— Segura na minha mão?

— Claro, mãe.

Quantas vezes ela não segurou a minha?

A última noite não foi fácil: respiração em apneia, ansiedade, sono raso, mesmo com o oxigênio.

— Reza pra mim.

— Claro, mãe.

Quantas noites ela não passou em claro aliviando minhas cólicas?

O dia está frio e chuvoso. Alfredo se aninha aos pés dela, enrolado na manta que aquece os pés gelados. Manta e vira-lata quase se confundem nos mesmos tons. O guarda-costas peludo nunca abandona o posto.

Certa feita, Alfredo chegou a pular sobre o peito dela para acudi-la num engasgo. Veio à lembrança o dia sufocante em que minha mãe me salvou de uma bala Soft enroscada na garganta.

— Quero fazer xixi.

— Claro, mãe.

Pego a cadeira apropriada para que ela não precise ir até o banheiro. Os pequenos trajetos se tornaram grandes percursos.

Estamos no momento de aprender a andar de novo.

Passos lentos, inseguros. Parecidos com os meus quando eu tinha menos de um ano — e ela estava lá, minha proteção de sempre.

— Me dá um leite com café?

— Claro, mãe.

Quantas mamadeiras ela não preparou pra mim?

Sempre depois do banho, enrolado na toalha, eu cantarolava para ela até pegar no sono, com a língua ainda aprendendo as palavras:

Êti, popô, naná…

Êti, popô, naná…

Às vezes ela pede algo, esquece e pede de novo.

— Água, água, água.

Às vezes parece pedir apenas para chamar atenção, como o garotinho que ela pôs no mundo e que lhe pediu as coisas mais absurdas, repetidamente. Já cheguei a perder a paciência, sem razão. Ela também, com razão.

Enquanto viro a página do livro no sofá, a tosse me avisa que terei dias de faringite. Ela agora só pede uma coisa:

— Faz um gargarejo com sal e vinagre.

— Claro, mãe.

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