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História errada

Lula enrosca a língua, cita forca inexistente e alimenta nova polêmica

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto de Arquivo

A campanha eleitoral ainda nem começou oficialmente, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já parece falar como candidato em tempo integral. Em evento realizado em Catalão, Goiás, o petista resolveu elevar a temperatura política a um patamar incomum até para os padrões da polarização brasileira. Ao atacar o senador Flávio Bolsonaro e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, Lula classificou-os como “traidores da pátria” e, numa referência histórica que produziu mais controvérsia do que esclarecimento, sugeriu que traidores mereceriam destino semelhante ao atribuído por ele a Joaquim Silvério dos Reis.

A frase produziu impacto imediato. Não apenas pelo simbolismo do enforcamento mencionado pelo presidente da República, mas também porque a comparação veio acompanhada de um equívoco histórico. Joaquim Silvério dos Reis, personagem lembrado pela delação da Inconfidência Mineira, não foi executado na forca. Quem terminou no patíbulo foi Tiradentes. Silvério morreu décadas depois, em circunstâncias naturais. A história registrou uma coisa, mas o palanque lulista, supostamente entre umas e outras, contou outra.

O discurso ocorreu no contexto da reação do governo brasileiro às medidas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos após a conclusão de investigação conduzida pelo USTR, órgão de comércio norte-americano. Lula atribuiu a ofensiva americana à atuação de aliados de Jair Bolsonaro junto a autoridades dos Estados Unidos. Foi nesse ambiente que os filhos do ex-presidente passaram de adversários políticos a personagens centrais de uma narrativa que mistura soberania nacional, disputa eleitoral e acusações de deslealdade ao país.

A reação veio na velocidade das redes sociais. A equipe jurídica de Flávio Bolsonaro anunciou medidas judiciais, enquanto líderes da oposição acusaram o presidente de ultrapassar limites institucionais ao recorrer a imagens associadas à execução de adversários. O episódio amplia a percepção já presente em Brasília de que o debate sucessório entrou definitivamente numa fase em que os discursos são produzidos menos para convencer adversários e mais para mobilizar torcidas.

No fim das contas, a fala presidencial conseguiu um feito raro. Reuniu numa mesma frase crise diplomática, disputa eleitoral, erro histórico, ameaça interpretada pelos adversários e combustível para mais alguns dias de guerra política. Em Brasília, onde quase tudo é calculado, resta a dúvida sobre o que foi mais preocupante, se a referência à forca ou a naturalidade com que ela foi recebida por uma plateia já acostumada a trocar argumentos por munição retórica.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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