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Utopia em cena

Pinóquios invadem Brasília caçando votos

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Autor/Imagem:
Pimenta Filho - Foto Editoria de Imagens/IA

Em ano eleitoral, o cidadão precisa redobrar a atenção não apenas com o que os candidatos fazem, mas principalmente com o que dizem. É nessa época que as praças se transformam em palcos, os microfones viram varinhas mágicas e alguns políticos passam a distribuir soluções tão fáceis quanto improváveis. Prometem hospitais sem filas, escolas sem problemas, segurança sem investimento, impostos menores, salários maiores, transporte melhor, contas equilibradas e felicidade garantida. O problema é que não explicam como fazer isso.

O eleitor experiente já conhece esse filme. A cada quatro anos, uma legião de Pinóquios deixa os bastidores da política para ocupar o centro do palco, vestindo ternos elegantes, ensaiando discursos emocionados e apresentando-se como salvadores da cidade. Alguns chegam a parecer sinceros, enquanto outros são tão convincentes que fazem da própria convicção um espetáculo.

O problema não está na promessa, porque governar exige sonhar. O problema surge quando o sonho é vendido sem qualquer compromisso com a realidade. E a sedução política raramente chega vestida de mentira explícita, preferindo a fantasia bem produzida, onde surge embalada em vídeos emocionantes, slogans inteligentes e frases cuidadosamente elaboradas para despertar esperança. Com a chegada da IA, a mentira não grita; apenas sussurra.

Por isso, muitos eleitores começam a perceber, ainda durante a pré-campanha, que por trás de determinadas propostas existe apenas um truque de ilusionismo eleitoral. Ao mesmo tempo em que fala com firmeza, o candidato não apresenta números. Critica adversários, mas não oferece soluções viáveis. Promete o impossível porque sabe que o impossível não precisa ser entregue naquele momento, porque basta render votos.

Pinóquio, na história infantil, tinha como problema simples aquele nariz que crescia toda vez que mentia. Na política, infelizmente, a anatomia funciona de outra maneira. O nariz permanece do mesmo tamanho e o que cresce são as redes sociais, os jingles, os palanques e os discursos. A mentira ganha tecnologia, assessoria de marketing e impulsionamento digital.

Porém, há algo que nem a melhor campanha consegue esconder para sempre: a realidade. É o rescaldo pós-eleição que se mantém na fila do hospital, no buraco da rua, na escola abandonada, no transporte precário e nas contas públicas que não fecham. A realidade é o momento em que o eleitor descobre que a oportunidade anunciada era apenas um engano maquiado de esperança.

Talvez por isso a maturidade democrática não consista em acreditar menos na política, mas em acreditar menos nos encantadores de serpentes. A democracia precisa de líderes capazes de falar a verdade, mesmo quando ela não rende aplausos imediatos. Precisa de gestores que expliquem dificuldades, apresentem caminhos e assumam responsabilidades e que tratem o eleitor como cidadão, não como plateia.

Em outubro, milhares de candidatos disputarão a confiança da população. Alguns trarão propostas consistentes. Outros aparecerão com o velho figurino do boneco de madeira. É nesse momento que o eleitor deve observar com atenção, porque, na política, nem sempre o nariz cresce, mas a conta da mentira quase sempre chega.

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