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Vozes da Literatura

Um bate-papo com o escritor e editor Sergio Diniz da Costa

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Fotos Arquivo Pessoal

O Café Literário tem a honra de receber Sergio Diniz da Costa, uma das figuras mais atuantes e generosas do cenário cultural contemporâneo. Escritor com oito livros publicados e advogado de formação, Sergio traz em seu próprio nome a essência de sua missão: atuar como um autêntico guardião e protetor da palavra escrita. Nesta conversa íntima e reveladora, o autor relembra como a timidez da infância abriu portas para um vasto mundo interior alimentado por Monteiro Lobato, e compartilha os desafios práticos — desde os financeiros até os de divulgação — que moldam a jornada de quem decide viver a literatura no Brasil.

Para além de sua produção pessoal, o entrevistado brilha intensamente em sua faceta como editor do renomado Jornal Cultural ROL. Demonstrando um raro desapego e um profundo senso de coletividade, Sergio revela como desacelerou a própria escrita para se dedicar a impulsionar o talento alheio, transformando o periódico em uma potência internacional conectada a colunistas de dezenas de países. Acompanhe, a seguir, uma entrevista tocante sobre sensibilidade, os bastidores do mercado editorial, o impacto das plataformas digitais e, acima de tudo, o poder catártico de escrever para aliviar a alma.

Para iniciarmos a nossa conversa e contextualizar quem está nos lendo, como você se definiria em uma breve biografia? Quem é você dentro e fora das páginas?

Eu começaria pelo significado do meu nome (Sergio). Do latim antigo, guardião ou protetor. Desde criança me sentia assim, inclusive em relação aos animais, em especial os gatos, que sempre os tivemos em casa. E, apesar de ter sido uma criança tímida e medrosa, tinha uma enorme preocupação por outras crianças semelhantes a mim, sentindo o desejo de protegê-las. Ao lado da timidez, ou talvez por causa dela, era muito contemplativo, sonhador, e voltado às ‘coisas do espírito’, ou seja, à transcendência do corpo físico, até pelo fato de ser espírita.

Toda jornada tem um ponto de partida. Como foi o seu começo no mundo das palavras e em que momento você percebeu que escrever não era apenas um passatempo, mas sim a sua identidade como escritor?

Imagino que todo ser humano tímido tem um mundo interior vasto e com a necessidade de externá-lo de alguma forma. Comigo, iniciou com a paixão pelos gibis e a leitura da coleção completa dos livros infantis de Monteiro Lobato, ou seja, as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo. Por conta disso, me percebi com certo dom para o desenho e o desejo de ser um escritor.

Onde você costuma buscar as suas principais fontes de inspiração para criar cenários e personagens? Existe algum ritual, tema recorrente ou autor (es) contemporâneo (s) que guie (m) o seu olhar?

Minha fonte de inspiração é o mundo que me cerca, o cotidiano, com suas mazelas e maravilhas. O convívio com pessoas e suas peculiaridades. Todo ser humano tem dentro de si um personagem a ser explorado por quem tem uma inclinação literária.

Como funciona a sua rotina de escrita e o seu processo de criação? Você é o tipo de autor que planeja cada detalhe antes de começar (arquiteto) ou deixa a história fluir livremente (jardineiro)?

Eu me vejo como uma ‘antena parabólica’, captando o mundo exterior. Dificilmente paro para pensar sobre o que vou escrever. As ideias e a inspiração vêm sopradas pelos ventos do momento. Às vezes, durante uma caminhada pelas ruas do meu bairro, ou por alguma situação que me leva a refletir e tomar uma posição.

O mercado editorial passou por grandes transformações nos últimos anos. Quais foram as maiores barreiras que você enfrentou para conseguir publicar os seus primeiros textos?

Barreiras, propriamente ditas, num primeiro momento não as tive. O primeiro livro, Elegantia Juris: O Argumento Eloquente, de 2002, nasceu do fato de, na época, estar advogando e sentir um impulso de colocar no papel argumentos de cunho filosóficos que utilizava em petições, além daqueles eminentemente técnicos. Nessa época, uma causa trabalhista ensejou a condição que permitiu a publicação do livro. Depois, aí sim surgiu a primeira barreira, própria de muitos escritores, qual seja, a financeira, e fiquei uma década aguardando nova oportunidade, surgida em 2012, por meio de parceria com uma amiga advogada (atualmente colunista do ROL) que, ao lado do marido, começaram a lançar livros. Eu fazia a revisão dos livros que ambos estavam lançando e, em contrapartida, ela bancava anualmente a publicação de um livro meu.

É comum aparecer alguém que diga que o tempo dos grandes escritores já passou, como se os autores atuais não fossem tão talentosos. Você concorda com isso?

Eu não diria que o tempo dos grandes escritores já passou. O que me parece é que estamos numa época em o que a internet oferece aos olhos, em especial dos jovens, é mais atrativo do que alguém sentar, de forma comportada e isoladamente, para ler um bom escritor.

Escrever é apenas metade do trabalho; a outra metade é fazer o texto chegar ao público. Quais são as suas maiores dificuldades na hora de divulgar o seu trabalho e alcançar novos leitores na internet?

R. Todos os meus oito livros foram publicados por editoras de Sorocaba (SP), e ambas não são distribuidoras. Portanto, uma vez que em livrarias eu não tinha condição financeira de colocá-los na posição de ‘ilha’, a divulgação era pessoal.
Por outro lado, a divulgação via internet não me ensejou ganho significativo.

As redes sociais tornaram-se indispensáveis para os escritores contemporâneos. Como você equilibra o tempo gasto construindo a sua presença digital com o tempo necessário para criar e escrever de fato?

Desde que iniciei como editor do Jornal ROL, minha produção literária teve um decréscimo acentuadíssimo, pois, fazendo jus ao significado de meu nome, creio que sou mais um guardião, um protetor da divulgação dos colunistas do que um escritor, no sentido estrito da palavra.

Olhando para o panorama da literatura atual, o que você considera o maior desafio para que um escritor consiga se manter ativo e relevante no mercado de hoje?

Levando-se em conta que tem muita gente lançando livros, o maior desafio talvez seja conseguir o melhor marketing de divulgação.

Como você divide as suas atividades como escritor e editor do Jornal Cultural ROL? Você se cobra mais por ser editor ou leva isso numa boa?

Conforme já declinei na décima pergunta, com o início do trabalho à frente do ROL, minha carreira literária teve uma pausa natural, pois digo com toda a sinceridade: divulgar os colunistas e também escritores e poetas que publicam textos pela seção O Leitor Participa, me traz uma sensação de completude, mais do que como escritor, pois, como ser humano, é uma bênção ser um instrumento de divulgação e valorização de quem está expondo a alma por meio de seus textos.

Qual conselho prático você daria para quem está começando a escrever agora e deseja publicar os seus contos, crônicas ou poemas em espaços como o Jornal Cultural ROL e o Café Literário?

Escrever é um ato catártico e, portanto, antes de qualquer outro efeito de ordem material, alivia a alma. Para quem está começando a escrever agora, eu diria que, além de pôr para fora o que está sentindo, deve autoburilar-se, com o domínio do idioma e adquirir uma sólida formação literária. Quando me refiro ao domínio do idioma, é decorrente de minha atividade como revisor de livros. Tenho me deparado com escritores e poetas que participam de várias academias de letras, de antologias e têm livros publicados, mas se descuidam quanto ao significado das palavras, o principal instrumento de quem escreve.

Um exemplo: já vi várias vezes o uso da palavra ‘desapercebido’, em vez de ‘despercebido’. Despercebido significa algo que não foi notado, visto ou que passou sem chamar atenção. Refere-se àquilo que escapou à observação. Ex.: “Ele entrou na sala de fininho e passou completamente despercebido.”, e Desapercebido significa ‘desprevenido, desprovido ou sem preparo’. Um exemplo meu: O soldado, para sua sorte, passou despercebido pela linha inimiga, pois estava desapercebido de seu armamento (ou seja, sem metralhadora, granada etc.).

Fale sobre qualquer coisa que desejar e que não lhe foi perguntado.

Eu gostaria de falar como o legado cultural do ‘Pai do ROL’, o saudoso jornalista Helio Rubens de Arruda e Miranda, aos 32 anos de fundação, conquistou culturalmente o mundo. No momento em que esta entrevista estava sendo respondida (04 de junho de 2026), o Quadro de Colunista contava com 87 colunistas, sendo 42 de sete estados brasileiros e 45 de 27 países, e quatro continentes! E, com a nova plataforma do ROL, implantada em junho de 2023, podendo ser acessada pelas pessoas portadoras de deficiência auditiva e visual. E mais ainda: podendo ser acessada pelo mundo todo, tendo os textos em português traduzidos instantaneamente para o idioma de quem acessar o ROL!

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Natural de Sorocaba (SP), Sergio Diniz da Costa é escritor, poeta e Editor-Chefe do Jornal Cultural ROL. Acadêmico Benemérito e Efetivo da FEBACLA; membro fundador da Academia de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA e do Núcleo Artístico e Literário de Luanda – Angola – NALA; Acadêmico Imortal Fundador da Académie Léon-Gontran Damas des Lettres et Arts de la Guyane française e membro da Academia dos Intelectuais e Escritores do Brasil – AIEB. Autor de 8 livros. Jurado de concursos literários. Recebeu, dentre vários titulos: pelo Supremo Consistório Internacional dos Embaixadores da Paz, Embaixador da Paz e Medalha Guardião da Paz e da Justiça; pela Soberana Ordem da Coroa de Gotland, Cavaleiro Comendador; pela Real Ordem dos Cavaleiros Sarmathianos, Benfeitor das Ciências, Letras e Artes; pela FEBACLA: Medalha Notório Saber Cultural, Comenda Láurea Acadêmica Qualidade de Ouro; Comenda Baluarte da Literatura Nacional; pelo Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos, Dr. h. c. mult. Pela Academia de Letras de São Pedro da Aldeia, o Título Honra Acadêmica, pela categoria Cultura Nacional e Belas Artes; Prêmio Cidadão de Ouro 2024, concedido por Laude Kämpos. Pelo Movimento Cultivista Brasileiro, o Prêmio Incentivador da Arte e da Cultura.

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