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Ameaça no ar

Kim manda investir em massa no arsenal nuclear da Coreia

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Autor/Imagem:
Antônio Albuquerque - Foto Divulgação

O líder norte-coreano Kim Jong-un afirmou durante uma visita a uma fábrica de produção de materiais nucleares recém-inaugurada esta semana, que o país asiático aprimorou seu plano de expansão de suas forças nucleares em ritmo exponencial.

“Hoje atualizamos os dados que são cruciais para nossas atividades nucleares e discutimos alguns assuntos importantes… Confirmamos a ordem de prioridade para a implementação do ambicioso plano futuro, concebido para fortalecer as forças nucleares do nosso Estado a um ritmo exponencial”, disse Kim.

Kim elogiou isso como um marco histórico na implementação de mudanças para fortalecer o poder nuclear da Coreia do Norte. Segundo relatos, a Coreia do Norte mais que dobrou a capacidade de produção de materiais nucleares nos últimos cinco anos.

É notório que poucos países exercem tanta influência geopolítica com um território relativamente pequeno quanto a Coreia do Norte. Isolado economicamente, alvo de sanções internacionais e governado há décadas pela dinastia Kim, o país transformou seu programa nuclear em uma das mais poderosas ferramentas de dissuasão militar do planeta.

Para especialistas em segurança internacional, o arsenal atômico norte-coreano representa simultaneamente um escudo de sobrevivência para o regime de Kim Jong-un e uma das maiores ameaças à estabilidade global desde o fim da Guerra Fria.

O desenvolvimento nuclear norte-coreano teve início ainda durante a Guerra Fria, com apoio técnico da antiga União Soviética. Porém, foi a partir dos anos 1990 que Pyongyang acelerou seus esforços para produzir armas nucleares capazes de garantir a sobrevivência do regime diante da superioridade militar dos Estados Unidos e de seus aliados.

Em 2006, a Coreia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear subterrâneo. Desde então, conduziu uma série de explosões experimentais cada vez mais sofisticadas, demonstrando avanços significativos na miniaturização de ogivas e no alcance de seus sistemas de lançamento.

Hoje, estimativas de institutos internacionais indicam que o país possui material físsil suficiente para dezenas de armas nucleares, embora os números exatos permaneçam envoltos em segredo.

Mísseis intercontinentais
O aspecto mais preocupante do programa militar norte-coreano não é apenas a existência das bombas nucleares, mas a evolução dos vetores capazes de transportá-las.

Nos últimos anos, Pyongyang apresentou diversos modelos de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), projetados para alcançar alvos a milhares de quilômetros de distância.

Analistas acreditam que alguns desses sistemas poderiam atingir não apenas Japão e Coreia do Sul, mas também partes do território continental dos Estados Unidos.

Esse avanço alterou profundamente o equilíbrio estratégico na Ásia-Pacífico, obrigando Washington, Seul e Tóquio a reforçar seus sistemas de defesa antimísseis.

Paradoxo da dissuasão
Embora frequentemente retratada como uma ameaça imprevisível, a estratégia norte-coreana segue uma lógica relativamente clara.

Para o regime de Kim Jong-un, as armas nucleares funcionam como uma garantia contra tentativas externas de mudança de governo.

Os exemplos do Iraque de Saddam Hussein e da Líbia de Muammar Kadafi são frequentemente citados por analistas como referências que influenciaram a liderança norte-coreana. Ambos os países abandonaram ou não concluíram programas nucleares e acabaram sofrendo intervenções militares ou colapsos internos.

Sob essa ótica, as ogivas nucleares seriam menos um instrumento ofensivo e mais uma espécie de seguro de vida político para o regime.

Erro de cálculo
Apesar da lógica da dissuasão, o arsenal norte-coreano continua sendo motivo de preocupação global.

O principal temor não é necessariamente um ataque deliberado, mas a possibilidade de erros de cálculo, falhas de comunicação ou escaladas militares involuntárias.

Um incidente naval no Mar do Japão, um exercício militar mal interpretado ou um lançamento de teste que seja confundido com um ataque real poderia desencadear uma reação em cadeia com consequências imprevisíveis.

Além disso, especialistas alertam para o risco de proliferação tecnológica, caso conhecimentos ou materiais nucleares sejam compartilhados com outros Estados ou grupos hostis.

China e Rússia
Nenhuma análise sobre a Coreia do Norte estaria completa sem considerar o papel da China e, em menor grau, da Rússia.

Pequim vê o regime norte-coreano como uma zona de amortecimento estratégica entre seu território e as forças militares dos Estados Unidos estacionadas na Coreia do Sul.

Por isso, embora apoie formalmente sanções internacionais, a China evita medidas que possam provocar o colapso do governo de Pyongyang.

A Rússia, por sua vez, também mantém relações políticas e estratégicas com o país, especialmente em um cenário de crescente rivalidade com o Ocidente.

Equilíbrio e medo
Setenta anos após o armistício que encerrou os combates da Guerra da Coreia, a Península Coreana continua sendo um dos pontos mais perigosos do planeta.

O arsenal nuclear de Kim Jong-un não transformou a Coreia do Norte em uma superpotência econômica nem militar. Mas garantiu ao país algo que poucos imaginavam possível décadas atrás: a capacidade de sentar-se à mesa das grandes potências e ser tratado como um ator estratégico impossível de ignorar.

Enquanto não surgir uma solução diplomática capaz de conciliar segurança, desnuclearização e estabilidade regional, o mundo continuará convivendo com um delicado equilíbrio sustentado por mísseis, ogivas e pela permanente ameaça de uma crise que ninguém deseja ver transformada em guerra.

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