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Bola na caçapa

Esporte é bom; ruim mesmo é o que vem por trás

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Para alguns viventes, poucos metros quadrados viram um labirinto. Para mim, o horizonte nada mais é do que o fim da primeira curva da vida. Por isso, estou há décadas habitando esta terra tentando construir uma vida que valha a pena ser vivida. Fosse um oriental, diria que o segredo da longevidade é comer a metade, andar o dobro e rir o triplo. Como sou tupiniquim, a todos que me perguntam sobre o segredo de minha longevidade sadia, vacinada, aflamengada e despudorada, a resposta é a mesma: É o esporte. Longe dele, é claro!

Como curiosidade mata, o povo do meu entorno e também os distantes sempre querem saber mais detalhes. Por exemplo, que tipo de esporte eu pratico. Futebol, basquete, voleibol, marcha atlética, maratona, natação, tênis, handebol ou cuspe a distância? A resposta é seca: Por uma razão bastante simplória, nunca pratiquei nenhum deles, pois todos remetem à sexualidade. Não que eu não goste. O problema é o que está por trás. Tanto no biológico quanto no psicológico e no social, fujo do que vem por trás como o Diabo da cruz.

Por isso, desejo e vocação à parte, mantenho minha orientação sexual acima de qualquer suspeita, mas esporte só debaixo dos lençóis e com a patroa. Minha primeira experiência ocorreu dentro das quatro linhas. Na falta de um guarda-metas especializado, fui para o gol no chamado racha da várzea suburbana. No primeiro lance, o atacante adversário me olhou dentro dos olhos e gritou: – Vou chutar tão forte no seu cantinho que sou capaz de furar sua rede. Pensei rápido: No direito ou no esquerdo? Na dúvida, fechei o olho direito e chutei seu ovo esquerdo.

Fui expulso, nunca mais me convidaram para a pelada, mas mantive o caneco intacto. Como pretenso jogador de futebol, meu maior problema era sentar no banco de pau duro do vestiário. É claro que o sentar não é literal. Assustador era imaginar o ponteiro do meu time tirando o uniforme na minha frente. Conhecido nas rodinhas como Trivelato, o malandragem só corria com o trem amarrado junto ao abdômen. Não sei se me entendem, mas, antes que visse a metáfora instrumentalizada, pedi contas antevendo o incômodo chilepe, chilepe, chilepe da chibata.

De outra feita, me convidaram para uma dessas maratonas festivas com prêmios variando de leitoa assada a uma noite de prazer com dona Sebastiana, a prima dona do bordel da cidade. Abandonei quando estava a uma distância razoável do segundo colocado, algo como três mil pés. Mesmo de longe, ouvi o sujeito gritar que ia me pegar por trás e não pensei duas vezes. Inventei uma distensão na coronária do pescocinho de frango e sai pela tangente. Quanto ao prêmio, a leitoa era, na verdade, um gambá assado e dona Sebastiana apenas uma senhora com ares e pares de mãe biotônica de minha avó.

Me arrisquei no basquete, mas abandonei tão logo descobri que o objetivo dos adversários era a cesta em minha quadra. Fui para a sinuca até perceber que, além de ser obrigado a empurrar as bolas com o taco de pau, a caçapa que eu defendia era onde entravam as bolas do inimigo. Tentei o vôlei, o handebol e até a queimada. Sem exceção, as bolas alheias sempre procuravam as minhas. Com última instância da derradeira entrância, a convite de um nadador profissional, parti de mala, cuia e maiô super estiloso para a natação. Desisti na borda da piscina ao ser informado que, dos quatro estilos oficiais, eu parecia predestinado aos nados de Costas, Borboleta Crawl. Tô fora.

Depois de muitas experiências amargas, aceitei o convite dos compadres Valdir de Camargo e Waldemiro Schneider para aderir à pescaria esportiva. Abandonei o esporte antes da primeira embarcada, após ouvir que a ordem do Ibama é devolver aos rios os tucunarés, os tambaquis, os bagres e as piranhas. Ou seja, só poderia ter nas mãos os pintados, os baiacus e os pirarucus. Pior foi saber que tinha de segurar firme na vara e, se ainda tivesse espaço no casulo, estaria liberado para limpar o pacu em casa. Sei que temos de estar preparados para tudo, mas só no meu não dá. Até hoje, nada a reclamar da vida, tampouco da condição de macho alfa. Não tenho músculos, mas a prega-rainha permanece no lugar. Como sou feliz longe do esporte.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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