Curta nossa página


Trilha na madrugada

Não se distraia

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

Acordo de madrugada para fazer uma trilha. Enquanto caminho pela rua solitária, às duas e cinquenta da manhã, uma moto surge e um cachorro sai repentinamente do mato. O piloto se desequilibra, tenta sair do fora e, por pouco, não bate no poste. Ele segue viagem; apesar do susto, tudo está bem. Rio. O cachorro me levou de volta há dez anos.

Dezembro, Natal chegando. Eu trabalhava como cabeleireira; as clientes ficavam loucas em busca de horário e eu, para atendê-las, passava muito do expediente. O cansaço batia e o tempo era curto. Subo o morro de casa em um domingo à tarde, minha filha reclama de dor nas pernas e, no dia seguinte, de dor de cabeça. Pensei: “Dengue”. No dia seguinte, desmarco clientes, levo-a ao médico e a suspeita é confirmada.

Os próximos dias se tornaram exaustivos. Em um dia, eu trabalhava e tentava atender o máximo de clientes possível; no outro, eu a levava ao médico, repetíamos os exames, ela tomava soro, e eu passava o restante do dia cuidando dela.

Dia vinte e um de dezembro, levo minha filha ao médico. Dengue no final, mas ela ainda está enfraquecida e precisamos ir até a escola levar o atestado e remarcar algumas provas. Desço a rodovia acompanhada por ela, que caminha lento. No trajeto, comento:

— Estou cansada, preciso descansar.

Tudo resolvido, voltamos. Uma borboleta cruza meu caminho e, como amo borboletas, me distraio seguindo seu voo com os olhos. Estou na entrada da rodovia principal; nas minhas costas, o ponto de ônibus; à minha frente, a rodovia. Olho o ônibus, que entra na rua atrás de mim. Distraída, minha mente me engana: se o ônibus entrou atrás, a rodovia da frente está liberada. Atravesso o canteiro ainda olhando a borboleta e entro na pista.

Ouço uma buzina no último volume. Não dá tempo nem de me virar; deito meu corpo para trás e sinto o vento do caminhão passando por mim em alta velocidade. Atrás de mim, o grito da minha filha:

— Mãe, está doida?

Demoro um pouco a me recompor, então observo a cena. Atrás de mim, o ônibus parado no ponto, e os dois passageiros que iam entrar me observam de boca aberta. Do outro lado da pista, todos os motoristas, nos dois sentidos, parados na rodovia, me observando assustados e esperando que eu atravessasse. No ponto de ônibus do outro lado, três pessoas. Um rapaz digitava ao celular quando entrei na pista; ele estava paralisado, celular na mão, boca aberta me olhando.

Quando finalmente cheguei ao outro lado da pista, ele me olhou e perguntou:

— Moça, você se distraiu?

— Sim, me distraí.

Em seguida, quando me dei conta de toda a cena à minha volta, dos olhos assustados, dos motoristas parados como se eu fosse uma louca, não aguentei: entrei numa crise de riso. E, quanto mais eu ria, mais zangada minha filha ficava.

— A senhora tem noção de que quase morreu? Está rindo?

— Estou. Não morri, mas também nunca mais digo que preciso descansar.

Lembrei-me dos meus avós paternos, que nos corrigiam sempre que dizíamos “vou embora”. Eles diziam: “Embora não, para casa”. A palavra “embora”, para eles, era a morte.

Após horas rindo, pensei em como um momento de distração pode se tornar uma tragédia. Mas, se não se tornou uma tragédia, deve se tornar riso e história.

………………………..

Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.