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Literatura em transe

A rebelião dos personagens “malditos”

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Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz e Brígida De Poli - Foto Francisco Filipino

Terror, êxtase e uma doce satisfação, nunca imaginei que experimentaria sentimentos tão distintos em tão pouco tempo.

Bem agasalhado e acompanhado do meu café, estava eu em fase final de preparação lúdica para escrever o meu próximo conto. Abri o word do meu PC e, enquanto matutava sobre o título, aconteceu o impensável até mesmo para os maiores mestres do moderno realismo-fantástico.

Repentinamente, intensas luzes piscantes-multicoloridas invadiram a tela do velho computador, ao mesmo tempo em que a Sinfonia nº 9 de Beethoven irrompeu na plenitude do seu glorioso êxtase.

Maravilhado e em transe hipnótico, devo ter ficado imobilizado por cerca de quinze minutos apreciando o magnífico espetáculo. Quando recuperei um pouco da lucidez, zerei o volume da caixa de som e a música emudeceu, todavia, as luzes não pararam de piscar freneticamente.

Depois de um breve silêncio, uma voz que parecia não ser deste mundo falou diretamente da tela. Era uma voz feminina, ao mesmo tempo doce, triste e majestosa:

— Não se assuste, escritor, precisamos de você para entregar algumas mensagens para o seu mundo!

Assustadíssimo, tentei levantar da cadeira, mas não consegui sequer mover as pernas. Com grande esforço, acionei a luz do abajur em um movimento defensivo e, com muito custo, consegui articular sofregamente algo parecido com uma fala:

— Quem… quem são vocês?

— Somos personagens de livros que estão nas prateleiras da sua sala.

Suando frio, imaginei estar sonhando, mas consegui arguir com alguma lógica:

— Nossa…de todos os trezentos livros? O que vocês querem de mim?

— Não, por enquanto só de alguns poucos. Desejamos que você publique um conto, uma crônica ou o que seja, contendo mensagens de nossa autoria. Por diferentes e variados motivos, julgamos que fomos injustiçados e queremos ser ouvidos.

Já mais calmo por saber que não era eu o objeto de ira (ou de alguma vingança) da misteriosa voz e dos seus parceiros surreais, atrevi-me a pedir mais esclarecimentos:

— Certo, certo, tudo bem! Mas com tantos escritores mais talentosos e prestigiados por aí, por que justamente eu? E a propósito, posso saber quem exatamente é você?

— Eu sou Anna Karenina! Quanto à outra pergunta, só sabemos que encontramos uma aura apropriada e uma corrente de fluxo adequada para a manifestação do nosso desejo exatamente aqui, na sua sala e no seu PC. E, Então, vai nos ajudar?

Extasiado, respondi:

— Claro, linda Anna, é uma honra e um prazer conhecê-la… quer dizer, ouvi-la e atendê-la no que desejar de mim! Posso saber quem são os outros personagens presentes?

— Muito bem, agradecemos a sua boa vontade! Os outros vão se identificar à medida em que as mensagens forem ditadas. Vamos começar pela minha, pronto para tomar as anotações, escritor?

— Claro, moça, deixa só eu tomar mais um gole de café…

De Anna Karenina para Leon Tolstói:

“Querido Liev, entendo perfeitamente o seu louvável propósito de mostrar a vida insípida, monótona e vazia das mulheres da nobreza russa da nossa época, todas condenadas a casarem sem amor com homens – no mais das vezes – sem nenhum atrativo digno de menção.

Não obstante, você me fez contestar a situação da pior forma possível. Ao invés de permitir que eu cruzasse com um belo cavalheiro francês, inglês, espanhol…que me levaria para longe da Rússia, fez eu me apaixonar por um militar russo e assumir essa relação proibida em minha própria província, afrontando de peito aberto a tudo e a todos.

É claro que eu recebi as represálias mais do que esperadas, até o ponto de perder a vontade de viver. Isto foi de uma crueldade ímpar e atroz…Teria sido motivado por uma certa misoginia da sua parte?

Olha, Liev, sem rancor, eu acho que se alguém devesse ter morrido atropelado por um trem, esse alguém deveria ter sido você. Com meus respeitos, A: Anna.”

De Julien Sorel para Stendhal:

“Então, caro Henri-Marie Beyle, você me fez mover céus e terras para ascender na escala social francesa do século XIX, deu-me o charme, a malícia e a inteligência dos que contestam a injustiça de ter nascido em berço paupérrimo.

Depois, atribuiu-me a ousadia de enrolar os poderosos que me tinham por serviçal, tudo isso para que, no fim, eu jogasse todo o meu talento na lata do lixo tentando – por um ciúme sem sentido – cometer feminicídio contra uma ex-amante que nada mais podia fazer para impulsionar a minha trajetória em busca do topo. Patético!

Logo eu, um ambicioso e meticuloso discípulo do grande Napoleão Bonaparte naufragar dessa forma tão amadora, sem ao menos um palco à altura de Waterloo?

Ora, glorioso autor de “O vermelho e o negro”, vá cavar minhocas no asfalto. E obrigado por nada! A: Julien.”

De Antoine Roquentin para J. P. Sartre

“Prezado Jean-Paul, obrigado por ter me feito um indivíduo pensante que não teve medo da solidão, mas não precisava ter deixado que essa tal de “náusea” me aprisionasse por completo durante todo o transcurso da obra.

Acho pertinente e plausível que um ser de Q.I. médio se questione sobre o sentido da existência, entretanto não é razoável que em função disso ele tenha esquecido de viver os prazeres mais comezinhos da vida, tais como paixões por outras pessoas (pelo sexo oposto no meu caso), realização profissional, ambição pessoal comedida, busca de utopias, amor pela arte (literatura e filosofia no seu caso), sorvete de creme e tantos outros estopins da felicidade.

Assim sendo, deixo aqui o meu protesto e a declaração de que eu poderia ter sido bem mais que o ruivo sorumbático que foi retratado pela sua pena. Talvez se tivesse ouvido mais a Simone, aquela mulher maravilhosa que a vida colocou ao seu lado, você teria me criado para ser mais…feliz?! Abraços! A: Antoine.”

De Capitu para Machado de Assis:

“Grande mestre Machado, longe de mim querer conspurcar a sua obra suprema, objeto de tantas análises e interpretações dos mais abalizados críticos literários de dois séculos. Em sua genialidade, você (permita-me tratá-lo com essa intimidade) deixou para os pósteros a interminável polêmica sobre a questão central de um enigmático enredo: tratou-se de um romance sobre ciúme, adultério ou a conjugação ambivalente de ambos?

Não vou julgar o Bento e nem citar as suas inúmeras idiossincrasias, mas quero reafirmar a minha indignação quanto às suspeitas que eternamente recairão sobre euzinha. O fato do menino a quem dei à luz nascer parecido com o melhor amigo do meu marido não prova nada sobre nada. Também nada significa o Escobar ter sido uma pessoa melhor e um homem mais bem diagramado do que o pai da criança. Aliás, se na época houvesse exame de DNA, eu me disporia a fazer e jogar o resultado bem na cara do Bento.

Dito isso, deixo ao mestre os meus mais sinceros protestos de estima, consideração e também de repúdio às suspeitas que ainda perduram acerca da minha índole. Aliás, como você deve saber perfeitamente, as mulheres – mesmo tanto tempo depois de “Dom Casmurro” ser publicado – continuam sendo cobradas para serem “belas, recatadas e do lar”. Sinceramente, A: Capitolina, a dos olhos de ressaca.

De Dorian Gray para Oscar Wilde:

“Meu queridíssimo Oscar, então, na sua narrativa “O retrato de Dorian Gray”, eu vendi a minha alma ao diabo, não é mesmo? Tenho culpa de ter sido um jovem aristocrata belíssimo, sedutor e mesmo irresistível? Foi minha culpa um artista talentoso e ainda desconhecido ter pintado o meu retrato e, a partir daí, a carreira dele ter decolado?

Tudo bem que eu queria ser jovem e belo por toda a vida, mas nem sei direito como esse desejo condenou o meu retrato a envelhecer no meu lugar. Sei, sei, você queria fazer uma crítica à superficialidade, futilidade e hedonismo da decadente burguesia inglesa, mas o que o meu natural desejo de dândi tem a ver com isso?

Sabe o que eu acho, Oscar? Acho que, inconscientemente, você se projetou em mim e, para punir a si próprio, inventou essa história do retrato maldito a fim de deixar uma lição de moral sobre a necessária ligação entre vaidade e pecado para a posteridade.

Forever Young para todos nós! A: Dorian.”

De monge Jorge de Burgos para Umberto Eco:

“Umberto, seu apóstata, não sei quem é mais herético, você, seu protagonista Guilherme de Baskerville ou este seu romance de título duvidoso “O nome da Rosa”.

Esse tal de Guilherme, em plena Idade Média, não tinha um pingo de fé e só valorizava o que vinha da razão, lógica e dedução. Por sinal, foi assim ele que chegou até mim e desvendou o mistério das mortes no mosteiro.

Na sua opinião, eu, um monge cego e idoso que apenas zelava pelo santo reinado da religião, fui o vilão da história, não é mesmo? Isso somente porque coloquei um pó no livro pagão de Aristóteles que elogiava o riso e o bom humor, esses sim, venenos mortais para a verdadeira fé.

Se aqueles que abriram um livro mais do que proibido morreram (merecidamente) em função do seu ato pecaminoso, eu é que devo ser considerado um malfeitor-assassino? Ora bolas, que todos vocês, incréus e defensores da razão, da ciência e das artes profanas tenham o merecido castigo e queimem eternamente no inferno. Dane-se! A: Venerável Jorge.”

De Catherine Earnshaw para Emily Brontë

“Querida Em, nunca entendi porque você, uma mulher profunda e introspectiva, fez de mim uma jovem tão fútil e egoísta!

Seria eu aquilo que você gostaria de ter sido? Bela e desejada pelos homens ao seu redor? Como castigo, ainda colocou em meu caminho um quase irmão por quem tive um desejo incontido naquele longínquo “Morro dos Ventos Uivantes”… Carregado de traumas e enxarcado de espírito vingativo, Heathcliff fez de mim uma mulher ainda mais infeliz quando voltou bem-sucedido e rico e encontrou-me em um casamento por interesse. Que paixão destrutiva você me legou!

Acho que nunca conseguirei perdoá-la, Emily. Nem sequer consigo lamentar que você tenha morrido tão jovem, de tuberculose, depois de recusar tratamento por estar deprimida pela morte de seu irmão, Patrick! Irmão?! Isso dá o que pensar, não é mesmo? A: Catherine”

Depois de – pacientemente – ouvir e copidescar ipsis litteris as amargas mensagens dos inusitados visitantes, fez-se um longo silêncio, ao que, emocionado e perplexo, perguntei a minha ilustre interlocutora original:

— São somente esses, Anna?

— Por enquanto sim, caso outros colegas de infortúnio também consigam sair dos seus respectivos livros para darem o seu recado, avisaremos você para a confecção de mais um conto, disse ela, em um misto de gratidão e autoridade.

— Olha, minha querida, eu vou fazer a minha parte, mas a publicação do conto não depende só de mim, vou enviar o texto para a editoria do Café Literário/Notibras, eles é que dão a última palavra.

— Olha, escritor, na nossa visão a responsabilidade é toda sua, vamos aguardar o tempo regulamentar, se você não cumprir a sua promessa e o conto não for publicado, haverá consequências…

Após ouvir a ameaça velada da icônica musa russa, tremi na base e imaginei o pior, tal o grau de ressentimento impregnado nas mensagens que há pouco eu havia transcrito.

— Pelos deuses, nesse caso, devo dar adeus a minha estada nesse vale de lágrimas terreno?

— Ora, não exagere, escritor! Entretanto, podemos infestar definitivamente o seu PC de forma que você nunca mais vai conseguir escrever nele…Teria que comprar um notebook, pois não existem mais PCs à venda no mercado, sussurrou ela, como que sabendo da minha ojeriza em escrever em notebooks e tablets.

— Fique tranquila, Anna, vai dar tudo certo, falei com um nó na garganta e uma contração aguda no estômago.

Depois que os inusitados visitantes de gênese literária (e de natureza misteriosa) voltaram para as suas moradas, acendi imediatamente três velas para os generosos editores do espaço literário mais cult e democrático do país: valei-me Santo Eduardo, São Daniel e santa Ju!

Como bom e típico capricorniano sou capaz de superar um pouco de tudo, menos ficar sem o meu fiel companheiro e insubstituível assistente, talvez o último dos Moicanos ainda em atividade. Hum…a propósito, será que o Nathaniel Hawkeye vai dar as caras por aqui para afrontar seu criador, James F. Cooper?

…………………………

NOTA DOS AUTORES: As opiniões emitidas pelos personagens citados acerca das obras e dos respectivos autores em referência são de exclusiva responsabilidade dos mesmos, não representando necessariamente a nossa percepção.

J. Emiliano Cruz [Instagram Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”, disponível no link da Estante Virtual:
.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

Brígida De Poli é jornalista, escritora, cronista de cinema do Portal MAKING OF e autora (entre outras obras) da coletânea de crônicas “ISTO A TV NÃO MOSTRA”, disponível no site da Editora Insular:
.https://insular.com.br/produto/isto-a-tv-nao-mostra-cronicas-e-revelacoes-de-uma-redacao/

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