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VOZES DA LITERATURA

LUCIANA DE LAMARE REINVENTA O SACI PARA AS CRIANÇAS

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Divulgação

Autora de “A Infância do Saci”, ela fala sobre literatura infantil, turismo regenerativo, mitologia brasileira e a urgência de aproximar as novas gerações das histórias do próprio país

 

A literatura infantil brasileira ainda tem vastos territórios a redescobrir dentro de casa. Entre personagens conhecidos de nome, mas nem sempre compreendidos em sua profundidade simbólica, o Saci ocupa lugar especial. Travesso, livre, misterioso e popular, ele atravessa gerações como figura da imaginação nacional, mas também pode ser lido como síntese de temas muito atuais: diversidade, pertencimento, inclusão, racismo estrutural, liberdade e cuidado com a memória cultural.

É por esse caminho que a escritora Luciana De Lamare apresenta “A Infância do Saci”, primeiro volume de uma coleção inspirada na mitologia brasileira. Com mais de vinte anos de experiência na área do turismo, Luciana aproxima literatura, educação, cultura e desenvolvimento territorial. À frente do Instituto Aupaba, ela também atua em projetos voltados à valorização de patrimônios culturais e naturais, formação de leitores e ampliação do acesso ao livro em escolas públicas e comunidades.

Em mais uma conversa da série Vozes da Literatura, o Café Literário ouve Luciana De Lamare sobre o nascimento do livro, a força dos mitos brasileiros e o papel da leitura na construção de vínculos mais profundos entre crianças, território e identidade.

Você acha que turismo regenerativo e literatura podem andar juntos?

Sem dúvida. Ambos falam sobre pertencimento, identidade e cuidado.

Ao longo de mais de vinte anos trabalhando com turismo, tive a oportunidade de conhecer países que valorizam profundamente seus mitos, lendas e personagens tradicionais. As crianças crescem conhecendo essas histórias porque elas ajudam a compreender quem somos e de onde viemos.

No Brasil, muitas vezes acontece o contrário. Conhecemos muito sobre a mitologia de outros povos, mas pouco sobre personagens como o Saci, a Iara, o Curupira ou o Boto.

Costumo dizer às crianças que um livro é um avião. Ele nos leva para qualquer lugar do mundo, mas também pode nos trazer de volta para casa. Foi justamente essa vontade de reconectar as crianças às suas próprias raízes que me levou a escrever sobre o Saci.

O turismo regenerativo e a literatura se encontram nesse ponto: ambos nos ajudam a valorizar territórios, culturas, memórias e patrimônios que precisam ser conhecidos para serem preservados.

Como surgiu a ideia de falar do Saci?

A ideia surgiu de uma combinação de pesquisa, observação e de uma conversa muito simples com meu filho.

Quando perguntei ao Gabriel o que ele sabia sobre o Saci, ele respondeu que tinha medo dele. Percebi então que muitas crianças conheciam o personagem apenas pelo medo, pela travessura ou pelo mistério, mas não conheciam sua história.

Isso me chamou atenção porque o Saci é um dos personagens mais ricos da cultura brasileira. Ele permite discutir temas extremamente atuais, como liberdade, diversidade, inclusão, racismo estrutural, pertencimento e respeito às diferenças.

Quis apresentar um Saci mais humano. Antes do mito, existe uma criança aprendendo a lidar com desafios, perdas, escolhas e descobertas. E é justamente nesse ponto que as crianças conseguem se identificar com ele.

 

 

Que dificuldades você enfrentou ao trabalhar esse tema?

A principal dificuldade foi perceber o quanto ainda conhecemos pouco sobre nosso próprio patrimônio cultural.

Existe certo preconceito em relação aos seres da mitologia brasileira. Muitas vezes eles são vistos apenas como figuras assustadoras ou são reduzidos a interpretações simplificadas, que impedem uma compreensão mais profunda de seu significado cultural.

Isso é preocupante porque a valorização da diversidade cultural brasileira está prevista na Base Nacional Comum Curricular, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação e em diversas políticas de proteção ao patrimônio cultural.

Quando falamos do Saci, não estamos falando apenas de folclore. Estamos falando da formação do povo brasileiro, da contribuição indígena, africana e europeia para nossa identidade e das histórias que ajudam a explicar quem somos.

Também acredito que precisamos ampliar os espaços para discutir esses temas com as crianças. Muitas das grandes questões contemporâneas podem ser abordadas pela literatura de forma muito mais sensível e transformadora.

Qual é o recado que o Saci deixa?

O Saci é muito mais do que um personagem travesso.

Ele representa a diversidade brasileira. Sua própria origem reúne influências indígenas, africanas e europeias, tornando-o um símbolo da miscigenação que formou o país.

Para mim, ele também fala sobre igualdade, inclusão e luta pela liberdade. É um personagem que nos convida a refletir sobre racismo estrutural, preconceitos e sobre a forma como lidamos com as diferenças.

Na minha interpretação, o Saci carrega ainda uma mensagem poderosa sobre resiliência. Mesmo enfrentando limitações e adversidades, ele continua livre, inteligente, criativo e dono do próprio destino.

Talvez por isso continue tão atual. Porque nos lembra que a diversidade não é um problema a ser resolvido. É uma riqueza a ser celebrada.

Fale um pouco sobre “A Infância do Saci”. Como surgiu o livro?

“A Infância do Saci” nasceu do desejo de aproximar as crianças brasileiras de um personagem fundamental da nossa cultura.

Depois de uma extensa pesquisa, percebi que existia espaço para contar essa história de uma forma diferente, mais acolhedora e conectada aos desafios contemporâneos.

O livro é o primeiro volume de uma coleção inspirada na mitologia brasileira. Cada personagem servirá como ponto de partida para dialogar com temas que considero fundamentais para as novas gerações.

Falaremos sobre proteção das florestas, conservação das águas, diversidade, inclusão, responsabilidade emocional, convivência, pertencimento e cuidado com o planeta.

Meu objetivo é mostrar que os mitos brasileiros não pertencem ao passado. Eles continuam oferecendo reflexões importantes para o presente e para o futuro.

E o Instituto Aupaba? A partir de que ideias ele foi criado?

O Instituto Aupaba nasceu da crença de que cultura, educação, meio ambiente e desenvolvimento territorial são inseparáveis.

Trabalhamos com projetos que buscam fortalecer comunidades, valorizar patrimônios culturais e naturais e ampliar oportunidades para populações em situação de vulnerabilidade.

A literatura faz parte dessa missão. Por meio dos nossos projetos, levamos livros gratuitamente para escolas públicas e comunidades onde muitas crianças possuem pouco acesso à leitura.

Para nós, distribuir um livro é também distribuir possibilidades.

Há algo que você gostaria de acrescentar?

Acredito que uma das grandes urgências do Brasil é aproximar as crianças da leitura e da própria cultura.

Ainda convivemos com desafios importantes relacionados ao acesso ao livro, à formação de leitores e ao analfabetismo funcional. E isso impacta não apenas a aprendizagem da língua portuguesa, mas também a interpretação de textos, a criatividade, o pensamento crítico e a capacidade de resolver problemas.

Ao longo dos projetos do Instituto Aupaba, visitamos escolas onde muitas crianças nunca tiveram um livro próprio. Algumas vivem em contextos de extrema vulnerabilidade. E é emocionante perceber como um livro continua sendo capaz de despertar curiosidade, imaginação e esperança.

Por isso acredito tanto nesse trabalho.

Ninguém protege aquilo que não conhece. E ninguém ama aquilo com o qual não cria conexão.

Se conseguirmos fazer com que mais crianças se apaixonem pelas histórias do Brasil, estaremos ajudando a formar cidadãos mais conscientes de suas raízes, mais preparados para compreender a diversidade e mais capazes de construir futuros melhores.

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Instituto Aupaba: https://institutoaupaba.org/

Instagram: @institutoaupaba.regenerativo    @lucianadelamare

Para adquirir o livro:
A Infância do Saci na Amazon.com

 

 

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